"Chile, mole y picadillo" (picante, com molho e picadinho) é uma expressão popular mexicana que significa variedade e ao mesmo tempo certa unidade de um evento.Assim foi o Encontro. Dez mil pessoas, de 98 países, assistiram ao Congresso Teológico Pastoral sobre a família. Vinte mil pessoas participaram no evento festivo e de testemunho celebrado na noite de Sábado 17 e outras tantas na Missa de encerramento do dia 18, ambos realizados na Basílica de Guadalupe. Em todos os eventos podiam ver-se famílias de diferentes cores, a falar em todos os idiomas... havia de tudo: chile, mole y picadillo. 

Valores vividos
Do início até ao fim o tom da mensagem foi o mesmo: a Igreja está interessada em que o amor entre homens e mulheres e entre gerações seja autêntico e frutífero. Na inauguração, Ennio Antonelli, presidente do Conselho Pontifício para a Família, recordou que "a família é a escola mais eficaz de humanidade e de vida cristã, transmite os valores humanos e cristãos segundo o seu modo próprio e peculiar". Na família, "os valores não permanecem na teoria e as normas não são recebidas como uma imposição, [mas são] interiorizadas como exigências da vida pessoal, como a verdade que tudo faz autenticamente livre, convertem-se em energias espirituais e virtudes".
Por seu lado, o presidente do México, Felipe Calderón, reconheceu que "a proliferação de indivíduos que fazem da violência, do crime, do ódio a sua forma de vida coincide, por desgraça, em grande parte com a fragmentação e a disfuncionalidade que afectaram os seus ambientes familiares".
A "enchilada" mediática
O Congresso, a par da Expo-Família, centrou-se na família como formadora de pessoas. Falou-se de educação na sexualidade, dos meios de comunicação, do diálogo entre pais e filhos, da migração, da pastoral da família, etc.
O professor da Universidade Pontifícia da Santa Cruz Norberto González Gaitano utilizou a "enchilada" como expressão de referência para as suas reflexões sobre meios de comunicação e família. Assim como neste prato típico (enchilada) se mistura a torta, queijo ou frango, e molho picante, na "enchilada mediática" da comunicação mistura-se tecnologia, conteúdos e cultura. A evolução tecnológica facilita a transmissão da informação, mas corre-se o risco de promover "uma visão fragmentária, parcial, frequentemente contraditória e sempre caleidoscópica do mundo e do homem".
Para González Gaitano, isto gerou na prática "uma nova identidade cultural [que se] caracteriza pela vulgarização da morte e da sexualidade". O remédio não está em queimar os livros, como fizeram aos de D. Quixote, ou "condenar os media, mas aprender a usá-los com discernimento". Citando o Papa, González Gaitano recomendou que se há-de procurar que "as crianças vejam o que é excelente estética e moralmente, e [ao mesmo tempo] sejam ajudadas a desenvolver a própria opinião, a prudência e a capacidade de discernimento (...) A beleza, espelho do divino, inspira e vivifica os corações e as mentes dos jovens, ao passo que a fealdade e a vulgaridade têm um impacto deprimente nas atitudes e comportamentos".
A médica italiana Maria Luisa Di Pietro, professora de Bioética na Universidade Católica do Sagrado Coração de Roma, recordou que a castidade é "a energia espiritual, que sabe defender o amor dos perigos do egoísmo e da agressividade, e sabe promovê-lo até à sua plena realização". Por isso, esta virtude não só evita que as pessoas sejam vistas como objecto de uso, mas permite que se convertam em "dom de si mesmas no amor, esse amor verdadeiro que sabe defender a vida".
Por isso quando a Igreja fala de educação na sexualidade, não se refere unicamente à instrução técnica sobre "como?", "quando?" e "com quem?". A Igreja recorda que a sexualidade não é só actuação biológica, mas uma acção que exprime e configura a pessoa: há algo biológico, mas há também "alguém" com um valor objectivo ético e histórico.
No princípio não foi assim
O "mole" é um prato mexicano. Faz-se com chocolate, com chile (picante) pelo menos de três tipos, amêndoas, passas e amendoins. Serve-se com frango, enfeita-se com gergelim, e acompanha-se com tortas, e com cebola passada em limão. Data dos tempos coloniais e utiliza sabores indígenas, espanhóis e mouriscos. É um prato barroco: gera-se harmonia a partir dos contrários. O barroco exprimia a consciência de que a existência humana encontrava a sua harmonia graças ao diálogo entre a debilidade do homem e a omnipotência do amor de Deus.
A conferência inaugural, "As relações e os valores familiares segundo a Biblia", do Congresso Teológico Pastoral prévio ao Encontro, foi proferida por Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia. Acusa-se a Igreja - disse - de ser "retrógrada"; e de certo modo destaca-se uma verdade fundamental: retrocede a um "no princípio não foi assim".
No projecto de Deus, varão e mulher foram "delineados" para exprimir o "Nós" da Santíssima Trindade, tanto na sua relação esponsal como na procriação dos filhos. Disse o franciscano: "Abrir-se ao outro sexo é o primeiro passo para se abrir ao outro, que é o próximo, até ao Outro com maiúscula, que é Deus. O matrimónio nasce sob o signo da humildade; é o reconhecimento da dependência e portanto da própria condição de criatura. Apaixonar-se uma mulher ou por um homem é realizar o acto mais radical de humildade. É fazer-se mendigo e dizer ao outro: Não me basto a mim mesmo, necessito do teu ser".
Dois obscurecimentos
O "retrocesso" cristão faz referência a outros dois momentos do passado, afirmou Cantalamessa. Primeiro, a queda pela qual o signo originário da pessoa e da sua masculinidade ou feminilidade se torna ineficaz e se obscurece o seu significado. "O predomínio [bíblico] do homem sobre a mulher faz parte do pecado do homem, não do projecto de Deus; com aquelas palavras Deus preanuncia-o, não o aprova [...]".
O pecado produz dois obscurecimentos. "O primeiro faz que o matrimónio deixe de ser um fim para ser um meio. O Antigo Testamento, no seu conjunto, considera o matrimónio como ‘uma estrutura de autoridade de tipo patriarcal, destinada principalmente à perpetuação do clã. É neste sentido que se devem compreender as instituições do levirato (Dt 25, 5-10), do concubinato (Gn 16) e da poligamia provisória'. O ideal de uma comunhão de vida entre o homem e a mulher, fundada numa relação pessoal e recíproca, não fica esquecido, mas passa a um segundo plano em relação ao bem da prole. O segundo grave obscurecimento refere-se à condição da mulher: de companheira do homem, dotada de igual dignidade, aparece cada vez mais subordinada ao homem e em função do homem".
Diálogo do divino e do humano
Mas a Bíblia - onde se estabelece o diálogo humano com o divino - não só se refere a esses obscurecimentos. Os profetas do Antigo Testamento, continua Cantalamessa, "tiveram um papel importante para devolver a luz ao projecto inicial de Deus sobre o matrimónio, em particular Oseias, Isaías, Jeremias. Assumindo a união do homem e da mulher como símbolo da aliança entre Deus e o seu povo, reflexamente, voltavam a pôr em primeiro plano os valores do amor mútuo, da fidelidade e da indissolubilidade que caracterizam a atitude de Deus com Israel".
O segundo momento é a recapitulação e redenção de tudo em Cristo. No seu diálogo com os fariseus, Jesus coloca-se numa linha de continuidade com "o princípio": "As palavras ‘O que Deus uniu' revelam que o matrimónio não é uma realidade puramente secular, fruto da vontade humana; há nele uma dimensão sagrada que se remonta à vontade divina". Jesus Cristo oferece a redenção e a recuperação do signo matrimonial como signo eficaz do amor intratrinitário que também se manifesta no seu amor incondicional pelo homem.
Por sua vez, Jesus Cristo apresenta uma novidade para entender a sexualidade humana: o celibato. Continua a dizer o franciscano: "A instituição do celibato e da virgindade pelo Reino enobrece o matrimónio no sentido de que faz dele uma escolha, uma vocação, e já não só um simples dever moral a que não era lícito subtrair-se em Israel, sem se expor à acusação de transgredir o mandamento de Deus. [...] Celibato e virgindade significam renúncia ao matrimónio, não à sexualidade, que permanece com toda a sua riqueza de significado". Neste contexto pode dizer-se que matrimónio e celibato estão chamados a ser signo eficaz e "símbolo da relação entre Cristo e a Igreja".
Mudar os costumes
O mundo actual parece "encontrar - [se] numa aparente contestação global do projecto bíblico sobre a sexualidade, o matrimónio e a família". Perante esta situação, o pregador pontifício indica dois erros a evitar: primeiro, "passar o tempo a rebater as teorias contrárias, o que acabaria por dar-lhes mais importância que merecem"; em vez disso, sugere "tirar proveito inclusive das críticas dos que combatem". A revolução do gender oferece à Igreja a oportunidade de redescobrir que os "fins objectivos" do matrimónio não obscurecem nem minimizam "o seu valor subjectivo e interpessoal. Tudo se pedia aos futuros esposos, excepto que se amassem e se escolhessem livremente".
O segundo erro "consistiria em encaminhar para as leis do Estado a defesa dos valores cristãos. Os primeiros cristãos com os seus costumes mudaram as leis do Estado; hoje não podemos esperar que as leis do Estado mudem os costumes".
Regressar à família
É difícil falar de família quando esta se reduz a um assunto do exercício exclusivo da própria autonomia ou da organização da vida dos adultos: independentes, libertados, donos do seu projecto de vida, no vigor da sua vida profissional e sexual. Deste modo, os temas de família reduzem-se ao controlo reprodutivo, à equiparação de qualquer união de adultos a uma família, e à possibilidade de que estes "funcionem" como família através de filhos biológicos ou legais.
Mas quando a família se considera do ponto de vista da comunhão em função do projecto original de Deus - o Encontro Mundial das Famílias no México voltou a manifestá-lo -, é possível superar o medo da existência graças ao amor. Por isso, quando a Igreja fala do lugar especial da família fundada no amor entre um homem e uma mulher que transcende o egoísmo do presente, procura, em palavras de Bento XVI, "defender o amor contraa sexualidade como consumo, o futuro contra a pretensão exclusiva do presente, e a natureza do homem contra a sua manipulação." (Discurso à Cúria Romana, 22-12-2008).
Pedro Pallares Yabur