Os dirigentes representam diferentes grupos. Zuma tem pelo seu lado a maioria dos pobres, as forças de esquerda e grande parte da etnia zulu. Mbeki conta sobretudo com o apoio da elite e de outros grupos étnicos.
O legado de Mbeki
Apontam-se graves erros ao presidente Mbeki. O detonador foi a acusação de não respeitar a independência do poder judicial, ao querer intervir na decisão tomada pelo juiz Nicholson no "caso Zuma", suspeito de corrupção.
Anteriormente a este facto, já se acumulavam outras razões: não dar prioridade às necessidades dos mais pobres; nomear para o seu gabinete algumas pessoas consideradas inadequadas e impopulares; destituir, em 2005, Jacob Zuma do cargo de vice-presidente do país, quando um seu sócio foi julgado por corrupção na compra de armamento a uma empresa francesa.
Para além do que atrás foi dito, acrescentam-se as posições tomadas como mediador na crítica situação no Zimbabwe; o ter atrasado o acesso gratuito aos medicamentos para combater a SIDA (e as suas ideias sobre esta doença); e, por último, o ter encoberto o chefe da polícia, quando era evidente que estava envolvido num escândalo de corrupção.
Mas, também há aspectos positivos na sua gestão, difíceis de negar. Nos últimos quatro anos a economia teve um crescimento médio de 5% - apesar da distribuição per capita continuar a ser muito desigual - e formou-se uma crescente classe média negra. Tomou também medidas, apesar de insuficientes, para aumentar o emprego. Acrescente-se que desenvolveu uma política externa muito favorável ao país.
Muitos criticaram o modo como o ANC obrigou Thabo Mbeki a demitir-se. Depois destes momentos turbulentos, começou-se a falar de uma possível fractura no partido maioritário, que acabasse por criar um novo partido, ideia que muita gente acolheu com satisfação. (NdR: lançamento previsto para 16 de Dezembro, com o nome de Congresso do Povo).
O que acalmou temporariamente as águas foi a escolha acertada de um presidente de transição, Kgalema Motlanthe, que inspira confiança, um homem de carácter ponderado, aberto ao diálogo. Motlanthe anunciou no seu primeiro discurso como presidente que continuaria a política económica do seu antecessor, o que também acalmou a intranquilidade de muitos, no sector económico.
De momento, Jacob Zuma não podia chegar ao poder, pois a Constituição estabelece que, para ser elegível como presidente, é necessário ser parlamentar. Mas, fica em aberto a possibilidade de aceder ao poder depois das próximas eleições de Abril de 2009.
A tentação de emigrar
Perante essa possibilidade, muitas pessoas com uma vida acomodada, ou de classe média, (brancos na sua maioria) começaram a considerar a hipótese de emigrar. Nestes últimos anos, também a emigração de pessoas de outras raças tem aumentado progressivamente (apesar de não ser fácil quantificar, por falta de registo do movimento migratório, que se está a tentar contabilizar).
O medo radica no facto do possível candidato à presidência, apesar de ter prometido seguir uma política económica liberal, já ter falado de estatização ou de outras políticas semelhantes e ser conhecida a sua "amizade" com a ala esquerdista. Para além disso, o seu maior apoio provem "das massas" que, em certas ocasiões, se mostraram violentas a ponto de dizer "matamos por Zuma".
À instabilidade política soma-se a instabilidade económica e social causada por vários factores. Em primeiro lugar, o desemprego: o índice oficial é de 23%, mas, na realidade, parece que pode ascender a 40%, se tivermos em conta os trabalhadores que desistiram de procurar emprego; para além disso, a taxa de desemprego desceu, desde 2001, apenas três pontos percentuais.
Outros problemas são o alto índice de criminalidade, com casos de brutal xenofobia contra imigrantes; a emigração de pessoal qualificado e a imigração ilegal ou legal de militares africanos de países vizinhos, que fogem de situações de miséria e chegam à África do Sul para viver em condições deploráveis e para competir por um trabalho com um grande número de sul-africanos negros. Nota-se a falta de preparação profissional e os problemas de relações humanas. A SIDA continua a afectar duramente o país, com as inerentes consequências, entre outras os órfãos.
O impacto da imigração não é só o êxodo de pessoal qualificado. Diminui também a cobrança de impostos indispensáveis para cobrir tantas necessidades do país, especialmente as das pessoas que se encontram em condições inferiores, alarmantes, sob o ponto de vista económico e educativo.
Que país queremos
As infra-estruturas, cada vez mais deterioradas, constituem um problema que carece de solução urgente. A situação piorou este ano por causa da escassez de energia eléctrica, o que fez falir ou fechar empresas.
Os políticos sul-africanos, como em tantos outros países de África ou do mundo em desenvolvimento, terão que lutar contra a crescente corrupção e começar a ver com mais seriedade o "tipo de país" que querem ser. Fala-se de liberdade, mas não sabem para onde querem ir, nem querem arcar com as consequências. Querem libertar-se da SIDA, mas não querem mudar ou fomentar estilos de vida que, longe de lutar contra a infecção, a favorecem (como por exemplo, o mercado da pornografia, que cresce de dia para dia). Querem ser um país próspero, mas retirando a melhor fatia para benefício próprio. Querem reduzir o crime, mas não vêem a importância de fortalecer as estruturas familiares, onde se transmitem valores humanos e solidários.
Longo Caminho Para A Liberdade, título do famoso livro de Mandela, herói da "Nação do Arco-Íris", pede que sejam repensados pontos básicos, como os valores morais, solidários e humanos, família, educação, compromisso, responsabilidade... Na África do Sul, também há muitas pessoas a quererem inverter a queda vertiginosa do país (muitos falam de não querer "outro Zimbabwe"). Por isso, pode falar-se de esperança.
Águeda Colom