Os cisnes são brancos? Até à descoberta de um cisne negro, na Austrália, a convicção de que todos os cisnes eram brancos era inabalável. «Este facto ilustra bem a grave limitação do nosso processo de aprendizagem a partir da observação ou da experiência, bem como a fragilidade do nosso conhecimento. Uma única observação pode invalidar uma afirmação comum baseada em milénios de constatações que confirmam os milhões de cisnes brancos». Taleb define, deste modo, como «Cisne Negro» os acontecimentos altamente improváveis, que se caracterizam por três atributos: primeiro, a sua raridade; segundo, a produção de um tremendo impacto; terceiro, a natureza humana faz com que inventemos explicações da sua existência, depois do ocorrido, que com isso se torna explicável e previsível.

Por serem factos pouco previsíveis, temos a tendência para agir como se não existissem; efectivamente «o que surpreende não é a grandeza dos nossos erros de cálculo, mas a falta de consciência que temos deles.» «A nossa mente é uma magnífica máquina de explicações, capaz de dar sentido a quase tudo. Todavia, é incapaz de aceitar a ideia de imprevisibilidade. A certeza da indeterminação da história serve para que Taleb estabeleça um quadro de actuação, ao analisar aquelas situações em que as consequências favoráveis sejam muito maiores do que as desfavoráveis. Trata-se do que ele designa por «resultados assimétricos: nunca chegaremos a conhecer o desconhecido, pois que, por definição, é desconhecido. Contudo, posso, de qualquer maneira, imaginar em que medida me afectaria e, sobre este facto, poderia fundamentar as minhas decisões.»

Há vários campos em que a aplicação dos Cisnes Negros se torna especialmente chamativa, como ao referir-se à análise económica neo-clássica e à sua explicação de como a racionalidade, funcionando como camisa-de-forças, leva os economistas ortodoxos a ignorar o facto de que as pessoas podem preferir algo mais do que maximizar os seus interesses económicos. Também não nos deixa indiferentes o seu ponto de vista sobre o nosso modo de entender o mundo como resultado da análise histórica. Queremos, compreender um mundo que é muito mais complexo e aleatório do que pensamos e isso conduz-nos a uma espécie de distorção retrospectiva que faz com que a história pareça mais explícita e organizada nos livros do que na realidade empírica.

Define a probabilidade como uma arte, filha do cepticismo. «Antes de o pensamento ocidental se ter abafado na sua mentalidade científica que, muito pomposamente chama Iluminismo, as pessoas preparavam o seu cérebro para o pensamento e não para a computação.» Isto tem aplicações muito práticas, como as intituladas «arbitrariedades de categorias». É o caso daqueles que estão a favor do aborto, mas que se opõem à pena de morte; daqueles que preferem a liberdade sexual, mas estão contra a liberdade económica individual. «Fico, frequentemente, irritado, afirma neste contexto o autor ,com os que atacam o bispo mas de certo modo confiam no analista de investimentos, os que manifestam o seu cepticismo contra a religião, mas não contra os economistas, os cientistas sociais e as falsas estatísticas».

Não posso resistir a deixar uma última citação que talvez possa resumir esta obra: «Dado que a consciência do Cisne Negro pode levar-nos ao isolamento e ao cepticismo extremos, vou optar aqui pelo sentido oposto: o meu interesse está nas acções e no empirismo autêntico. Por isso, este livro não é obra de um sufi místico, nem de um céptico, no sentido antigo e medieval, nem sequer no sentido filosófico, mas de um profissional, cujo objectivo principal é não ser imbecil em coisas importantes. Ponto.»


Antonio del Cano