Na realidade, é sensato por parte da Arábia Saudita empenhar-se para que baixe o petróleo. Uma forte subida, ou a descoberta de jazidas num país que não era produtor, traz também o perigo do "mal holandês", assim chamado pelo que ocorreu na Holanda quando se descobriu gás natural no seu território nos anos 60. A inundação de divisas provoca inflação e a sobrevalorização da moeda nacional prejudica as exportações e provoca a perda de competitividade dos sectores não petrolíferos da economia.
Com efeito, a inflação aumenta nos países da Península Arábica. No reino saudita, ronda os 10% por ano pela primeira vez desde 1981, o Qatar regista 14% e nos Emirados Árabes Unidos aproxima-se dos 10%.
O desemprego também aumenta nesses países, que têm mercados de trabalho muito irregulares. Na península, os estrangeiros são 40% da população e uma proporção dupla dos trabalhadores do sector privado. Os nativos desfrutam de asilo político em cargos públicos, no último ano com aumentos salariais de 15% a 70%, segundo o país. Mas estas compensações pela inflação em tempos de superavit não conseguiram travar o desemprego juvenil, por volta dos 25%, nem impedir os protestos dos estrangeiros, que trabalham por menos dinheiro e sentem mais a subida dos preços.
Para não repetir velhos erros
Desequilíbrios semelhantes sofreram esses países nos anos 70, com a agravante de que os governos esbanjaram o seu mar de petrodólares. Investiram-nos em propriedades imobiliárias no estrangeiro e em contas correntes na Suíça, gastaram profusamente em subsídios à população e em projectos sumptuosos, e perderam assim uma oportunidade de desenvolver e diversificar as suas economias.
Enquanto isso, os países importadores de petróleo ressentiam-se, mas acabaram por descobrir jazidas noutros locais e aprenderam a utilizar o combustível de modo mais eficiente. Assim, a quota de produção da OPEP baixou de 52% do total mundial em 1973 para 30% em 1985, e o barril de 70 para 20 dólares. E começaram, então, os anos de preços baixos que desgastaram as receitas dos países exportadores. Agora que houve uma reviravolta, a Arábia Saudita e os seus vizinhos não querem repetir os erros antigos.
Em primeiro lugar, estão a prevenir o fim da presente tendência altista, investindo no país uma parte maior dos seus colossais rendimentos, e em projectos que contribuam para diversificar as suas economias. Segundo cálculos da consultora McKinsey, os seis países do Conselho de Cooperação do Golfo prevêem dispender em tais investimentos 230 000 milhões de dólares anuais, em média, até 2020. A Arábia Saudita, o Bahrein e Abu Dhabi - um dos Emirados - optaram principalmente pela siderurgia; o Abu Dhabi está a construir agora a maior fábrica de alumínio do mundo. O Dubai , Omã e Qatar concentraram-se nos serviços: finanças, turismo, ensino, investigação.
Mas, segundo Kenneth M. Pollack, analista da Brookings Institution (cfr. International Herald Tribune, 15.07.2008), investem demasiado dinheiro em projectos que requerem muito capital e oferecem benefícios rápidos aos investidores, e muito pouco em outros que criam um grande número de empregos e favorecem o desenvolvimento a longo prazo. Esses países meteram-se numa expansão turística grandiosa, com centenas de novos hotéis, apesar dos seus limitados atractivos de clima, cultura e paisagem. E se não dedicam mais esforços à educação, os melhores empregos criados com este esbanjamento serão de novo para estrangeiros.
Corrupção em África
Em África, os novos ricos do petróleo apresentam sintomas piores. A Guiné Equatorial, recém-incorporada no clube dos produtores, é a candidata ideal a sofrer do mal holandês. Segundo o FMI, o sector petrolífero representa 95% do seu PIB, e a manufactura apenas 1%. A "maldição do petróleo" pode evitar-se com uma fórmula como a da Noruega, que por lei destina uma grande parte dos benefícios a um fundo de investimento autónomo no qual o governo não pode meter a mão. Uma tentativa semelhante foi feita no Chade, que se comprometeu a guardar 10% das receitas do petróleo para as gerações futuras e a destinar a maior parte a programas contra a pobreza, tudo isto em troca de empréstimos do Banco Mundial. Mas o governo chadiano não resistiu à tentação de deitar a mão ao dinheiro para financiar as suas aventuras militares, e em 2006 anulou o acordo.
A riqueza petrolífera é uma dádiva para os regimes corruptos, ainda que a população apenas desfrute dela e, consequentemente, aumente a desigualdade e se provoquem tensões sociais. Não há em África exemplo mais claro que o da Nigéria, o primeiro produtor do continente (2,6 milhões de barris diários). Apesar da abundância de crude, tem que importar combustível no valor de 4 000 milhões de dólares anuais e não é capaz de produzir electricidade suficiente para garantir o abastecimento: os apagões são diários. As quatro refinarias estatais funcionam apenas a 50% da sua capacidade, porque o dinheiro que deveria ter sido gasto na sua manutenção foi parar a outros bolsos.
A incipiente Iniciativa para a Transparência das Indústrias Extractoras, promovida por Tony Blair em 2002, poderia mudar o panorama se se expandisse e se cumprisse. Em consequência desta iniciativa, as empresas concessionárias e os estados que a subscrevem comprometem-se a tornar públicos os fluxos de capital gerados pela exportação das matérias-primas. Isto implicaria um poderoso travão à corrupção, que é o maior impedimento para a boa utilização dos receitas do petróleo.