Ele sabe que nenhuma das suas fotografias pode captar aquilo que sentiu, por isso, deixa nas paredes da torre uma pintura mural que sintetize as suas obsessões sobre a guerra, servindo-se das experiências pictóricas de outros grandes pintores de batalhas como El Bosco, Paolo Uccello e Goya.
Faulques convive com as suas recordações e a obsessão por este quadro que está a pintar. Mas, de repente, irrompe na sua vida um soldado croata que ele tinha retratado há quinze anos atrás, durante a guerra de Sarajevo, e cujo rosto foi primeira página em numerosos meios de comunicação. A fama que esta fotografia proporcionou a Ivo Markovic, o soldado, foi também o seu castigo: feito prisioneiro e torturado pelos sérvios, a sua família pagou, de maneira trágica, as consequências. Após anos de busca, Ivo Markovic encontra finalmente Faulques.
Estabelece-se entre os dois uma curiosa relação, que os leva a rever as suas vidas e compreender a sua ligação à guerra. O romance consiste, sobretudo, nessa conversas, dado que a acção fica definida quase desde o início. Faulques desfia nestes diálogos a sua concepção da vida e do ser humano: "o homem tortura e mata porque faz parte da sua natureza. Dá-lhe prazer". Como disse Pérez-Reverte numa entrevista, "não é um livro autobiográfico, apesar de Faulques se parecer comigo. Uso a minha biografia, ou melhor, o meu olhar, o que vi".
Os leitores habituais de Pérez-Reverte podem sentir-se perdidos diante deste novo e diferente romance, mais real. É certo que é mais elaborado, com menos artifício e mais qualidade literária. Pérez-Reverte trabalhou bem a estrutura. A escolha dos cenários bélicos e o mundo da fotografia e da pintura acrescenta possibilidades estéticas, que não desperdiça. No entanto, no que se refere às personagens, mantém a fidelidade aos seus já conhecidos estereótipos: Faulques possui um carácter forte e provocador (parecido com o do autor), próprio da galeria de personagens masculinos das suas obras. Também Olvido, a protagonista feminina, mantém a mesma função que as outras mulheres das suas novelas: "Ela é o olhar lúcido que torna os homens conscientes de si próprios". O amor que sentem um pelo outro pretende ser o contraponto temporal a tanto excesso de horror que contemplam à sua volta. Pérez-Reverte exagera tanto ao intelectualizar e idealizar esse amor, que o torna inverosímil, artificial.
A guerra adquire neste romance matizes dramáticos e originais, visto que o autor não cai num pacifismo piegas nem na glorificação do terror. No entanto, ao colocar a guerra como o símbolo exclusivo da existência, o seu ponto de vista é moralmente desolador: "o desastre devolve o homem ao caos de onde procede".