O movimento começou visivelmente a 14 de Julho passado com um acampamento na avenida Rothschild de Tel Avive para protestar contra o elevado custo da habitação. Rapidamente se juntaram outras queixas: o aumento de preço dos alimentos, a escassez de creches acessíveis, o aumento da desigualdade social. É o protesto da classe média pelas dificuldades concretas e quotidianas; o "basta" das pessoas que trabalham e pagam impostos, mas não se podem permitir viver numa boa casa e tem dificuldades para criar os filhos.
  
Graças à organização de boicotes, conseguiram que as empresas de alimentação baixem os preços

Não faltam também os apelos a mudar o "sistema", como nos protestos dos outros países. Mas os indignados israelitas souberam manter-se nos seus pedidos concretos e originais, e a sua pressão deu frutos. Também tiveram o cuidado de se apresentarem como independentes de partidos, sindicatos e tendências políticas, entre outras coisas evitando a mais pequena referência aos temas mais polémicos em Israel: o confronto com os palestinianos, a segurança, a ocupação da Cisjordânia.

Reacção rápida do governo

O governo não tardou em reconhecer a força do movimento. Preparou a toda a presa um projecto de lei para aumentar a oferta de casas novas, que foi aprovado pelo Knesset (Parlamento) a 3 de Agosto. A 15 de Agosto nomeou uma comissão encarregada de estudar os pedidos do movimento popular e apresentar recomendações, coisa que fez em Setembro. A 9 de Outubro, o conselho de ministros aprovou as suas propostas, com algumas alterações. O gabinete de Benjamin Netanyahu irá aplicá-las mediante decretos e leis ao longo dos próximos anos, com a esperança de que dêem frutos visíveis antes das próximas eleições, previstas para 2013.

 

O governo aprovou uma lei para aumentar a oferta de casas novas, mas os "indignados" querem habitação com apoios públicos e acessíveis

A rápida resposta do governo é prova da força do movimento, que se manifestou a 6 de Agosto ao conseguir reunir a maior manifestação da história o país: mais de 200.000 pessoas em Tel Avive, e multidões menores noutras cidades. Contudo, as medidas aprovadas não satisfazem as aspirações dos indignados, que exigiram a retirada do projecto de lei sobre vivendas e manifestou-se contra o relatório Trajtenberg.

Decepções e vitórias

A receita do governo para tornar mais barata a habitação recorre às leis do mercado, e o que o movimento pede é mais intervenção estatal. A lei urgente aprovada em Agosto acelera a aprovação de promoções imobiliárias. Os indignados recusam a liberalização e reclamam projectos públicos.

O relatório Trajtenberg propõe construir cerca de 200.000 vivendas em cinco anos, de modo que ao aumentar tanto a oferta, os preços baixem. Os dirigentes do protesto não confiam nas promotoras privadas, que segundo eles querem vender tão caro como agora, ou não construirão. "Se a razão pela qual escolhemos a rua foi a crise da habitação - disse uma iniciadora do movimento, Dafne Leef, depois da aprovação das recomendações Trjtenberg -, por que não faz o governo uma proposta relevante para lhe fazer face? Onde estão as habitações públicas, as casas acessíveis? (Haaretz, 9-10-2011).

A proposta tem tido mais êxito com o sector privado, graças à organização dos boicotes. A Tnuva, fabricante de queijos e outros produtos, capitulou a 2 de Outubro, e compromete-se a baixar os preços. Dois dias depois aderiu a cadeia de supermercados Super-Sol, que venderá mais barato, afirma, reduzindo os custos e importando directamente. Agora os indignados apontam outras empresas de alimentos. Zion Balas, presidente de uma delas, a Strauss, reconhece que "os preços dos alimentos em Israel são dos mais altos do mundo", mas adverte que os produtores não chegam para regular a situação: têm de intervir os vendedores e mesmo o governo.

Interesses contrapostos

Outro protesto deste verão ilustra uma das causas dos elevados preços dos alimentos e mostra que os indignados não têm que enfrentar só o "poder", governamental ou empresarial. A 3 de Agosto manifestaram-se em Tel Avive uns cinco mil agricultores contra a projectada reforma do mercado dos produtos lácteos. O governo pretende baixar as tarifas alfandegárias e aumentar a cota de importações. Os manifestantes invocaram a seu favor as aspirações da cidadania: "O povo quer leite israelita", foi o lema da concentração.

Também na campanha pela habitação se viu que, pese o empenho dos indignados por evitar motivos de divisão, diferentes sectores da sociedade civil têm interesses contrapostos. Os que em Julho iniciaram o acampamento na avenida Rothschild não têm a mesma ideia que os jovens colonos judeus da Cisjordânia que se juntaram no mês seguinte. "Viemos para apoiar o protesto civil - declararam ao diário Haaretz (4-08-2011) -, mas também para dizer que há solução: construir na Judeia e Samaria", ou seja nos territórios ocupados. O mesmo propuseram a 2 de Agosto 42 ministros e deputados de vários partidos numa petição a Netanyahu: "Facilitar casas para dezenas de milhares de cidadãos da Judeia e Samaria, assim como em Jerusalém".

Mas expandir ainda mais o estabelecimento israelita no solo palestiniano é apolítica radical que constitui o maior obstáculo por parte de Israel para a paz, não a resposta aos pedidos do movimento popular. A classe média que protesta desde o verão pede moradias acessíveis em Israel e não quer viver nos territórios ocupados. Contudo, o esforço do Estado concentra-se nos colonos: "Metade da promoção de moradias públicas na passada década foi na Cisjordânia norte, e não houve nada na zona de Tel Aviv", assinalou a deputada da oposição Zahava Galon num debate sobre a lei aprovada em Agosto.

Também é convincente que num protesto pelo elevado custo de vida para as famílias estejam ausentes os que têm mais filhos: "os haredim ou judeus "ultra-ortodoxos". Mas a verdade é que esta não é a sua causa. Eles recebem subvenções do Estado para se dedicarem ao estudo da Tora, não pagam impostos directos, estão isentos do serviço militar, muitos não trabalham. O movimento popular é de gente subsidiada, que trabalha e paga impostos, e olha com ressentimento para as regalias dos haredim.

Ainda que os líderes do movimento não se atrevam a dizê-lo, a justiça social que reclamam consistiria, em boa parte pelo menos, em equilibrar o gasto e a atenção do Estado, actualmente inclinada para o exército, os colonos, os haredim, os chegados da diáspora. Num país onde há sectores sociais com interesses muito definidos e uma lei eleitoral que dá às minorias uma representação considerável, os protestos iniciados no verão passado parecem o despertar da "gente comum", a classe média sem privilégios que não recebe uma parte proporcional do bolo.

Rafael Serrano