- Quais foram os seus principais desafios neste filme?
- Por um lado, foi-me difícil recriar a Espanha da Guerra Civil. Por outro, equilibrar os diferentes amores que se cruzam no filme: o amor de um santo por Deus e um intenso amor humano no contexto de ódio de uma guerra. O filme procura reflectir todas estas facetas do ser humano, por vezes contraditórias, que só se podem ver com nitidez quando se abrem como as pétalas de uma flor.
- Estudou muito a vida de São Josemaria?
| "Um santo não é um super cristão, um super-herói que anda por aí de capa ao vento" |
- Li tudo o que pude sobre ele. Obviamente as suas biografias, em especial os três volumes escritos por Andrés Vázquez de Prada e o testemunho do seu sucessor, Álvaro del Portillo. E também tive acesso aos seus apontamentos íntimos e a diversos diários dos locais onde viveu.
Um homem com um especial dom para unir
- O que o atraiu nele?
- Muitas coisas, mas no filme quis sublinhar sobretudo a sua compreensão para com todos, a sua capacidade para superar divergências políticas e defender as suas convicções pessoais sem violência. Penso que Josemaria tinha um dom especial para unir, para integrar perspectivas aparentemente contraditórias. Por exemplo, durante a Guerra Civil espanhola dizia aos jovens que o seguiam: "É verdade que estão a perseguir a Igreja, e que nós temos de nos defender. Mas também não podemos esquecer as injustiças sociais que existem. Parecem aspectos contraditórios, mas, se Deus nos deu cabeça, foi para descobrir o modo de os tornar compatíveis".
Fazendo jus às suas palavras, a personagem que no filme interpreta Josemaria repete com insistência que nunca podemos esquecer a humanidade das pessoas. Um dos seus seguidores pergunta-lhe: "Mesmo que estejam enganadas?". Ele responde: "Sim, mesmo que estejam enganadas". Esta premissa acompanhou-me em todos os momentos. Não é um slogan; é uma ideia muito importante que se deve estudar a fundo: a plena dignidade de cada pessoa. Eu não queria adoptar no filme posições ideológicas, nem apontar a ninguém um dedo acusador. Procurei uma forma de mergulhar na guerra e aí mostrar as personagens como seres humanos autênticos, e não como arquétipos políticos ou ideológicos.
| "Há algo muito libertador na ideia cristã de aceitar a nossa fragilidade pessoal" |
A cada santo se exigem respostas específicas de acordo com as circunstâncias históricas em que vive. Nos seus anos de formação, Josemaria sentiu a pressão das mesmas posições políticas que se enfrentavam e que depois explodiram na Guerra Civil. E que, certamente, não eram muito diferentes das que sofreram os protagonistas de A Missão, duzentos anos antes.
Capacidade de redenção
- Outro tema que o filme realça é a capacidade humana de redenção e santidade, inclusive nas circunstâncias de guerra tão terríveis como as que mostra no filme.
- A guerra é uma espécie de brutalidade condensada. Não se pode suavizar. Mas, para um agnóstico como eu, o conceito cristão de redenção é fascinante. É uma mensagem de perdão e de reconciliação, à qual tiro o chapéu.
Josemaria acrescentou a essa mensagem a ideia de que todo o ser humano é capaz de ser santo. Estudando a sua vida, compreende-se que um santo não é um super-cristão, um super-herói que anda por aí de capa ao vento. Na realidade, é um ser humano como os outros, mas capaz de fazer actos heróicos - de santidade - no normal do dia-a-dia, como contas que vai enfiando até formar um colar maravilhoso.
Não são filosofias, são obras concretas, que se podem contabilizar. Deste modo um santo é o ser mais humano que existe. E todo o ser humano está chamado a esses níveis de excelência, embora às vezes o seu ego ou o seu ódio não lhe permitam vê-lo. De certo modo, um agnóstico, quando deixa de o ser, realiza o maior dos actos de reconciliação.
- Agnóstico é precisamente o que o senhor se declara ser. Terá porventura decidido mudar de posição?
- Na verdade sou um agnóstico que fraqueja com frequência. A minha própria formação britânica me dificulta tomar as coisas demasiado a sério. Cada vez que me disponho a tomar uma decisão, dá-me vontade de rir. Desejaria que a ciência demonstrasse a existência de Deus; mas não é para isso que serve a ciência.
De qualquer modo, mesmo os disparates que eu faço me tornam consciente da grandeza das religiões. Não creio de modo algum que a religião seja uma coisa supersticiosa ou obsoleta. Não se pode ser tão arrogante. Além disso, como posso saber na verdade o que acontece? Atrai-me aquela ideia do Iluminismo do homem nobre, auto - suficiente, que se cria a si mesmo. Mas, quando penso nela com sinceridade, parece-me uma ideia burguesa e pedante. Sou de facto um ser muito pequeno, com muito pouca noção de como as coisas se processam. E não me agrada essa outra ideia iluminista do bom selvagem que é pervertido pela sociedade. Os seres humanos não são perfeitos. É muito arriscado aceitar o contrário, como ficou demonstrado durante o século XX, quando tantos não perfeitos foram sacrificados pelos perfeitos.
Agrada-me mais a mensagem cristã de que somos fracos, e que amamos e somos amados precisamente devido à nossa fragilidade e à dos outros. É como se num casamento ela dissesse um dia: "Descobri que o meu marido não é perfeito". Deveria partir-se do princípio de que uma pessoa se casa com alguém que não é perfeito, para não haver surpresas nem sensação de traição. Há qualquer coisa de muito libertador na ideia cristã de aceitar a própria fragilidade.
- Como escolheu Charlie Cox para o papel de São Josemaria?
- Estava previsto que Charlie Cox fizesse o papel de um dos primeiros seguidores de Josemaria. Mas, ao fazer a sua prova, vi nele uma doçura, um humor, uma vivacidade que, na minha opinião, Josemaria também tinha.
E, uma vez seleccionado, fiz o que já tinha feito com Robert de Niro em A Missão. Nesse filme, pedi a um sacerdote da teologia da libertação que assessorasse o actor. Neste caso pedi o mesmo a um jovem sacerdote norte-americano do Opus Dei, John Wauck.
Charlie podia perguntar-lhe o que quisesse em qualquer altura, para saber directamente como actuaria Josemaria, como sacerdote, em determinadas situações. Estabelecemos assim uma série de mini sessões em que cada personagem manifestava o seu posicionamento político, por razões de educação, de família ou outras. Procuramos deste modo obter a máxima sensação de veracidade e de realismo.
Jerónimo José Martín



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