A investigação foi publicada na revista PLOS Medicine por uma equipa encabeçada por Daniel T. Halperin, da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard, e outros especialistas do Imperial College de Londres, do Fundo de População das Nações Unidas e de organismos de saúde do Zimbabwe. As vitórias na luta pela prevenção da sida, em países com altas taxas de infecção, não foram muitas até à data. Os casos da Tailândia e Uganda são os mais conhecidos, mas nem todos os consideram concludentes. Na Tailândia, a transmissão do VIH estava relacionada sobretudo com o difundido comércio de sexo, o que permitiu abordá-la com programas de distribuição massiva de preservativos nos bordéis. No Uganda, com uma campanha dirigida pelo governo e centrada sobretudo na redução do número de parceiros sexuais, a taxa de infecção pelo VIH desceu do máximo de 15 %, em princípios dos anos 90, para uns 4% em 2003. Mas voltou logo a subir até 7%, quando a maior disponibilidade de antiretrovirais levou a que os ugandeses descuidassem a prevenção. O êxito do Uganda nunca foi completamente reconhecido por organizações que trabalham na prevenção da sida, talvez porque, segundo a estratégia ABC, se falava de abstinência e fidelidade e não apenas de preservativos.

Agora, o caso do Zimbabwe, classificado por esses investigadores como "um excelente êxito de prevenção", volta a colocar em primeiro plano a importância das mudanças de comportamento sexual para combater a epidemia.

Os dados indicam que, depois de um rápido crescimento da prevalência do contágio pelo HIV nos princípios dos anos 90, se alcançou um máximo dos 29% em 1997, e depois começou a baixar até aos 16% em 2007. A partir destes dados e de entrevistas em sessões de grupo, os investigadores fizeram uma reunião com organizações que trabalham neste campo no Zimbabwe para discutir as causas do declive. A conclusão unânime foi que "uma redução no número de parceiros sexuais é a causa próxima mais provável da recente descida no risco de HIV". 

 A experiência do Zimbabwe volta a colocar em primeiro plano a importância das mudanças de comportamento sexual para combater a epidemia. 

Embora não pareça que tenha havido um recuo na idade de iniciação sexual, diversos relatórios revelam uma redução aproximada de 30% na proporção de homens com relações extra- matrimoniais. Além disso, houve uma considerável redução no número de homens que frequentam prostitutas.

Em compensação, ainda que o uso de preservativos tenha crescido de modo regular durante os anos 90, não aumentou mais entre 1999 e 2006 e o seu uso é muito baixo nas relações estáveis.

Mais receptivos à mensagem de fidelidade

A julgar pelas declarações dos entrevistados em reuniões de grupo, o principal motivo para as mudanças de conduta sexual foi a mortalidade causada pela sida entre pessoas chegadas. Os investigadores pensam que, paradoxalmente, também o retrocesso económico ajudou. Com a catastrófica gestão económica do governo de Robert Mugabe, o PIB desceu cerca de 40% entre 1999 e 2005, o que reduziu muito as entradas pessoais e a possibilidade de pagar por sexo ou de manter vários parceiros sexuais.

Igualmente, muitos participantes nas discussões de grupo mencionaram que a mensagem de fidelidade, difundida em programas de prevenção desenvolvidas pelas igrejas - a insistência na B (Be faithful) do ABC - " foi aceite por muitos membros da comunidade".

Os investigadores interrogam-se também por que razão a descida observada no Zimbabwe é superior ao de outros países do Sul de África, onde a percentagem de adultos infectados pelo HIV oscila entre os 12% e os 26%. A conclusão a que chegaram é que o Zimbabwe se destaca por ter altos níveis de pessoas com estudos secundários e casadas. Esta combinação favorece uma melhor compreensão da relação entre comportamento sexual de risco e sida, e uma atitude mais receptiva às mensagens que invocam fidelidade.

A conclusão do estudo é que a experiência do Zimbabwe tem implicações importantes para a prevenção da sida em África. A lição que emerge é que "no Zimbabwe, como noutras partes, a redução de parceiros sexuais parece ter tido um papel crucial na reversão da epidemia do VIH. Os programas dos sectores público e privado no Zimbabwe apoiam-se agora neste conhecimento para fazer advertências mais firmes contra os parceiros sexuais múltiplos e para promover a fidelidade, além do uso regular do preservativo e de outras abordagens com resultados, como a circuncisão masculina. Esforços similares estão a surgir noutros países da região, como uma enérgica campanha na Suazilândia, que adverte para os perigos de ter amantes secretos" (cfr. www.aceprensa.com, 14-2-09).

Aceprensa