Um grupo de peritos - Puccetti, Del Poggetto, Castigliola, Di Pietro - propuseram-se comprovar se os chamados living will são eficazes ou não. Com este fim, reviram 690 artigos científicos que tratam essa declaração de vontade antecipada, na qual uma pessoa indica quais os possíveis tratamentos médicos a que quer ou não submeter-se no caso de sofrer uma doença grave e seja já incapaz de dar o seu consentimento válido. Nesse caso, podem indicar o nome de um representante que cumpra a sua vontade.
 
 O testamento vital congela a vontade do paciente no passado, sem possível actualização prática.
A pergunta radical é se a declaração se manteria ao chegar a doença, ou se o paciente poderia ter mudado de opinião. De facto, 30-40% dos doentes graves mudam de critério a respeito dos cuidados que desejam, entre o aparecimento da doença e sete anos depois. Os partidários não vêem problemas, pois a declaração pode modificar-se a qualquer momento. Mas os estudos realizados informam que 80 % dos doentes não são conscientes de que o que pensam agora é diferente do que escreveram nessa altura. Portanto, não lhes vai passar pela cabeça alterar a redacção do documento.

Por outro lado, os investigadores mostram o papel que a preguiça desempenha para não rever a declaração. Junta-se uma certa angústia psicológica de reescrever um documento que pode influir na própria morte. Deixa-se para amanhã...Até que se entra em coma e já não se pode mudar nada. Por fim, o tratamento vital congela a vontade do paciente no passado, sem possível actualização prática. E muito diferente decidir quando uma pessoa está com saúde, que decidir quando sabe que vai morrer, circunstância na que a imensa maioria se agarra com toda a força à vida.

Progressos na Medicina

A instrução antecipada exigiria dispor de uma capacidade antecipadora das muitas doenças graves e mortais e dos correspondentes tratamentos, tendo em conta também que a medicina progride: coisas inúteis hoje podem ser eficazes no futuro.

Outro problema é a dificuldade para compreender os termos técnicos. Um inquérito inglês mostrou que 50 % não sabia a diferença entre uma paragem cardíaca e um enfarte. Mais de 97 % tinham ideias erradas sobre a eficácia da reanimação cardiopulmonar consequências clínicas da rejeição de certos tratamentos.

E não parece que os problemas possam resolver-se com a ajuda de um médico na redacção. Em primeiro lugar, porque a média da duração da consulta é de 5 minutos e 40 segundos. Além do mais, existe o risco de que seja o médico a escrever a declaração e não o interessado. Quase 80 % das pessoas mudam de opinião em função da informação que recebem; e os mesmos dados dão lugar a decisões diferentes se se comunicarem de maneiras diferentes. Sem contar que o testamento é redigido num momento de depressão, típico de quem tem prognóstico reservado, a vontade da eutanásia dispara. Em resumo, é compreensível que todos nos deixemos sugestionar pelos outros e pelo ambiente quando está em jogo a própria saúde.

Os médicos não confiam

As coisas também estão pouco claras a respeito do possível representante, a quem se recorre como pessoa de confiança, para superar qualquer dificuldade. Segundo as investigações, um em cada três tende a interpretar erroneamente os desejos do interessado. E, na prática, costuma dar o seu consentimento para . desligar com mais facilidade em função da gravidade do doente, muito para lá do que está escrito na declaração. Projecta a sua própria visão sobre os desejos do paciente, às vezes por pressão psicológica dos parentes e amigos.

Por fim, os médicos não confiam no testamento. De facto, na ultra- liberal Dinamarca, o documento só se consulta "sempre" em 1 % dos casos e "frequentemente" em 11 %. Porquê tanta desconfiança? Por estas razões: em primeiro lugar, a dificuldade de aplicar à situação clínica do paciente os conteúdos inevitavelmente vagos da declaração. Uma investigação demonstrou, por exemplo, que só 3,9 % das instruções eram apropriadas à situação real do doente. Em segundo lugar, a tendência dos profissionais de saúde para esgotar os meios para salvar a vida do doente, ainda que sejam contra as indicações do documento. Em terceiro lugar, a dificuldade de encontrar a tempo o representante legal.

Está por saber, afinal, se os próprios doentes querem realmente que se cumpra literalmente a sua vontade ou se deixe liberdade de manobra à família e aos médicos. De facto, entre 60 e quase 90 % dos testamentos redigidos, incluem uma cláusula que conceda certa liberdade a médicos e parentes para que decidam em consciência, sinal claro de que os próprios redactores têm pouca fé nas instruções antecipadas.

Um grupo de trabalho da Academia Americana de Neurologia especializado no tratamento de doentes com Esclerose Lateral Amiotrófica concluiu que não foram encontradas provas que a declaração melhore a qualidade de vida em nenhuma doença. O investigador James Tulsky afirma expressamente: "Devemos superar as directivas antecipadas para satisfazer verdadeiramente as necessidades dos doentes, assumindo decisões difíceis".

Salvador Bernal