Ninguém é perfeito. Todos podemos ser fracos quando a ocasião se apresenta. Mesmo os transgressores que regularmente infringem a moral vigente podem ser tratados com indulgência; afinal, eles são apenas humanos e, além disso, são geralmente divertidos ou admiráveis em certas facetas, ou tiveram um passado difícil, ou... Algumas pessoas pensam assim sobre o temperamental e eticamente instável Mel Gibson; bastantes californianos votaram em Arnold Schwarznegger para o fazerem governador, embora sabendo da sua abordagem hollywoodesca sobre o amor e a união; e Dominique Strauss-Kahn era reconhecido como um notório mulherengo muito antes dos chefões europeus o porem à cabeça do FMI.

Então porque é que os lapsos morais dos Gibsons, Schwarzneggers e Dominique Strauss-Kahns continuam a fazer manchetes de primeira página e causar debates públicos, investigações de alto nível e - muitas vezes - demissões? Estas figuras públicas estão a portar-se pior do que os inúmeros cidadãos comuns? O que se poderia esperar que eles fizessem? Em parte, é excitação, porque os jornalistas sabem muito bem que, por muito que eles possam estar acima de tal hipocrisia, há um apetite insaciável entre o público no que diz respeito ao escândalo dos altos e poderosos.

É também um jogo político. Com as próximas eleições do ano que vem, não há um dia nos Estados Unidos sem que algum candidato ou estrela em ascensão não tenha os seus pecados expostos na praça pública; esta semana é o democrata Anthony Weiner; no mês passado, foi o senador (cristão) republicano John Ensign que foi forçado a demitir-se devido a investigações relativas a um caso extra-conjugal anterior. Amigos de Strauss-Kahn alegam que os adversários políticos estavam ansiosos por apanhá-lo envolvido num caso com uma empregada de hotel - apesar do seu comportamento sexual parecer ser a última coisa que o levaria a perder a popularidade em França. E o processo penal em curso contra o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi pelo seu envolvimento sexual com menores parece uma última tentativa de conseguir agarrar esse político extraordinariamente poderoso e inexplicavelmente popular.

Seria insensato, porém, ver todas estes escândalos públicos como cínicas manobras políticas. Às vezes as pessoas simplesmente cansam-se ​​com a injustiça e a arrogância de algumas figuras poderosas. Este parece ser o caso do escândalo do suborno na FIFA que veio à tona esta semana. Não precisamos de saber muito de futebol para perceber qual o poder do presidente do organismo responsável pelo Campeonato do Mundo e para entender a tentação de se agarrar ao poder - por meios honrados ou menos limpos.

Mais uma vez, embora possa haver uma certa dose de inveja e sadismo político por trás de relatórios expondo incríveis gastos de políticos e funcionários, o esbanjamento é uma injustiça - pelo menos quando se está a usar o dinheiro de outras pessoas, e especialmente quando se trata de um conjunto de cidadãos com problemas de liquidez ou pessoas pobres que lutam em países em desenvolvimento. Enquanto a tinta quase secou a escrever histórias sobre a suite do chefe do FMI no hotel de luxo em Nova York, os britânicos estão irados devido aos gastos perdulários da Comissão Europeia em jactos, festas, resorts e todo o tipo de despesas - 8 milhões de libras nos últimos anos -, tudo isto agravado pelo pedido de aumento do orçamento.

A mensagem desta indignação moral é que - à parte as celebridades - esperamos mais dos nossos representantes e funcionários públicos do que se fossem personagens de folhetins televisivos ou de filmes sobre ditadores obcecados pelo poder, e esperamos que se nivelem por padrões éticos. Mas quais são esses padrões?

Bem, parecem incluir virtudes como a moderação no uso dos recursos, controle sexual e honestidade. Como se sabe do escândalo sobre os padres católicos que abusaram sexualmente de menores, se há uma coisa em que existe um consenso público, é o erro inerente de fazer mal a crianças. Os agressores já sabiam disso, claro, porque a Igreja Católica é o perito mundial em regras morais que, com base no Decálogo e no Catecismo, não deixa ninguém na dúvida. Mas visto que há pouco consenso sobre a ética sexual na sociedade secular, outras organizações devem mesmo definir quais as regras, e não só em matéria de comportamento sexual.

Os políticos costumam ter as suas fronteiras bem definidas, pelo menos em países como os EUA e a Grã-Bretanha, mas as coisas não são tão transparentes quando se entra no mundo das empresas e organismos internacionais. E quanto mais se sobe na hierarquia mais obscura parece ser a responsabilização ética.

O FMI, por exemplo, tem um sistema de dois níveis, com um conjunto de orientações éticas para os funcionários correntes e outro para os 24 membros executivos que supervisionam a organização. Segundo o código de conduta pessoal, as queixas de assédio sexual, intimidação ou comportamento agressivo podem ser investigadas, descritas nos relatórios anuais e podem conduzir à demissão. Ao nível de conselho de administração, no entanto, como um estudo de 2007 descobriu, as regras são vagas e, embora tenha sido criado um comité de ética em 1998, em 2007 ele "nunca se reuniu para considerar quaisquer outras questões para além do seu próprio funcionamento".

O contrato de Strauss-Kahn tem este código do pessoal inscrito nele, mas ele só é responsável perante o conselho. Como o New York Times relata: "Em 2008, pouco tempo depois de Strauss-Kahn assumir o posto mais alto, o fundo foi obrigado a investigá-lo por ter um caso com uma subordinada. Nesse caso, o fundo contratou um escritório de advocacia externo para tratar do inquérito porque o responsável pela ética não foi autorizado a investigar a um nível tão elevado. Embora se tivesse concluído que Strauss-Kahn não abusou da sua posição, ele foi repreendido publicamente pelo conselho por ter revelado falta de sensatez, tendo pedido desculpa. Parece que ele não aprendeu muito com essa reprimenda.

O código do conselho fala em generalidades como manter "os mais altos padrões de integridade" e tratar os colegas e funcionários "com cortesia e respeito, sem assédio ou abuso, físico ou verbal", mas, é claro, pessoas como Strauss-Kahn exigem mais instruções detalhadas sobre o significado de "cortesia" e "assédio".

O resto da sociedade, no entanto, terá de dar uma ajuda a situações como a do FMI. As organizações (que se pressupõem democráticas) são pelo menos tão boas eticamente, como as pessoas que representam. Cada um de nós é capaz dos maiores males; da mesma maneira, os povos que elegem os Schwarzneggers e os Berlusconis, bem como os governos que apoiam os Strauss-Kahn. Tudo isto nos deve causar uma profunda preocupação. E nessa frente ética há muito trabalho a fazer.

Uma nova sondagem do instituto Gallup sobre as questões morais mostra que, embora a grande maioria dos americanos se oponha a relações extra-conjugais (o dano é demasiado pessoal para ignorar), há uma considerável tolerância de comportamento que prejudica o matrimónio e a família - incluindo pornografia, sexo e parentalidade fora do casamento. Além disso, a tolerância para essas matérias é maior entre os jovens adultos do que nos grupos etários mais velhos. É duvidoso que as coisas sejam muito diferentes nos outros países ricos.

Também é difícil ver como podemos ter líderes com altos padrões de ética, quando o terreno em que eles assentam se está a desmoronar.


Carolyn Moynihan é redactor-adjunto do MercatorNet.