Um partido islamita na coligação de governo
Na batalha política intervêm cada vez mais partidos fundados por líderes extremistas islâmicos |
Não se pode esquecer que na batalha política intervêm cada vez mais partidos fundados por líderes extremistas islâmicos ou por pessoas próximas das ideias de Bin Laden. De facto, o país está governado por uma coligação entre o Pakistan People's Party e a Pakistan Muslim League-Q, com uma história importante de fundamentalismo. Menos mal que, por fim, a Liga não se fez com um novo Ministro Federal para a Harmonia e as Minorias religiosas.
Nesse contexto, resultará praticamente impossível a reforma dos artigos vigentes do Código penal, conhecidos como lei anti-blasfémia. Como é sabido, esses preceitos, estabelecidos teoricamente para defender o profeta Maomé e o Corão, converteram-se, na prática, numa ferramenta contra as minorias religiosas, que constituem à volta de 5% da população: hindus, cristãos e também membros de Ahmadi (considerada uma seita muçulmana).
Os cristãos, 2% da população, pertencem às castas sociais mais pobres do país. Têm sérios problemas para conseguir educação, e sofrem, de modo habitual, ameaças de morte, conversões forçadas ao Islão, casamentos impostos com muçulmanos, ou por fim, expropriação injustificada dos seus escassos bens e propriedades.
Manifestações na rua contra a impunidade
Nesse contexto, compreende-se o apoio dos católicos às concentrações celebradas nas principais cidades do Paquistão (Lahore, Islamabad, Karachi), para "protestar contra a impunidade e defender o direito de dizer a verdade", depois do assassinato do jornalista paquistanês Syed Saleem Shazad. Este repórter da Asia Times Online foi sequestrado em finais de Maio e apareceu assassinado no dia 31. Nos seus artigos denunciava os laços entre o exército, os serviços secretos (ISI) e as redes fundamentalistas islâmicas como Al Qaeda ou grupos fundamentalistas talibãs.
Jornalistas, activistas de direitos humanos, organizações da sociedade civil, comunidades religiosas concentraram-se no 1º de Junho ante as sedes das associações da imprensa. Nas manifestações havia sacerdotes, religiosos e fiéis cristãos, comprometidos com a defesa da democracia e a legalidade no país: "Não podemos calar a verdade. Também nós vamos continuar com a nossa missão", declarou à Fides o P. John Shakir Nadeem, director da Radio Veritas em língua urdu e Secretário da Comissão para as Comunicações Sociais da Conferência Episcopal do Paquistão.
Um dos graves problemas do país é a impunidade desse tipo de acções violentas. Ninguém se lembra já do assassínio do Ministro Bhatti. E não cessam as violações de direitos humanos básicos, das quais só com dificuldade e a conta-gotas se tem notícia no Ocidente. Raramente as grandes Agências fazem eco das informações de Agências como a Fides. Algo contribuirá a difundir essa penosa situação, a presença em Paris de uma filha de 16 anos e do marido de Asia Bibi encarcerada desde Junho de 2009. O motivo da visita é a publicação do livro testemunho Blasphème. A família Bibi afirmou que estava "muito comovida pelo apoio recebido do Santo Padre através do núncio em Paris". Foram recebidos em Quai d'Orsay (Ministério dos Negócios Estrangeiros) e na Grande Mesquita de Paris, e assistiram à Missa Dominical em Notre-Dame.
Não cessam as violências contra as minorias
A Agência Fides informava no passado 24 de Maio sobre as novas vítimas da violência no centro do Punjab: duas raparigas cristãs foram sequestradas por um grupo de muçulmanos e obrigadas a converter-se ao Islão, para casarem à força com um rico empresário local de Jhung, na zona de Faisalabad. A polícia não fez o menor caso da denúncia paterna; pelo contrário concluiu que as duas raparigas provavelmente tinham fugido do seu lar de forma espontânea e recomendou ao pai que "se esquecesse das suas filhas".
Segundo Haroon Barkat Masih, Director da Masihi Foundation, produzem-se centenas de casos como este: "o sequestro de raparigas cristãs, a conversão e os casamentos forçados são uma prática comum em Punjab. Paga-se à polícia para que encubra e não registe as denúncias".
Poucos dias antes, duas enfermeiras cristãs foram capturadas e maltratadas durante nove horas por um funcionário muçulmano do Fatima Hospital em Lahore (Punjab), acusadas injustamente de roubo, para abusar sexualmente delas. Noutro caso de abuso contra os cristãos, duas famílias de Jalal Pur Jattan, também em Punjab, perderam as suas casas e terras, ocupadas e arrebatadas à força pelos homens de um rico proprietário local, um ex-membro do Parlamento provincial de Punjab.
A influência dos talibãs no Paquistão
Outro sacerdote católico de Faisalabad, o P. Bonnie Mendes, responsável da secção Asia da Caritas Internationalis, lança um grave grito de alarme: "Os talibãs tornaram-se cada vez mais fortes, mesmo depois da morte de Bin Laden. E possuem o consenso de amplos sectores da população; o cidadão comum, o muçulmano paquistanês normal, está muito irritado com o governo, com os Estados Unidos e com a NATO, por esta razão vê com bons olhos as acções dos grupos talibãs".
Segundo afirma o P. Khalid Rashid Asi, sacerdote da diocese de Faisalabad, no Punjab, "a situação dos direitos humanos no Paquistão é muito difícil e preocupante. Neste contexto geral, as minorias cristãs sofrem o abuso e a negação dos seus direitos fundamentais, a nível social, económico e religioso". Como assinalara Mons. Lawrence Saldanha, Arcebispo de Lahore y Presidente da Conferencia Episcopal do Paquistão, ao condenar o assassinato de Shahbaz Bhatti: "Este é um perfeito exemplo trágico do clima insustentável de intolerância em que vivemos no Paquistão".
As autoridades religiosas continuam a fomentar a oração e a convivência, sem prejuízo de mostrar a sua repulsa, na esperança de que o novo Ministério Federal para a Harmonia e as Minorias Religiosas tenha alguma eficácia prática.
Aceprensa



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