Como o anterior, o segundo estudo foi encomendado pela Conferência Episcopal, que pagou a maior parte da despesa. Também contribuiram para o financiamento várias instituições católicas. O John Jay College, da Cidade Universitária de Nova Iorque, está especializado em criminologia e é uma instituição independente da Igreja.

Segundo o primeiro relatório, no período de 1950-2002 houve denúncias de abusos sexuais contra 4.392 sacerdotes, ou seja 4 % dos sacerdotes activos nesses anos. Uma parte muito pequena (149 sacerdotes) acumulava 27 % das denúncias.

  Os anos em que houve quase todos os abusos foram os da revolução sexual e os de menor satisfação dos sacerdotes com o seu ministério

Contra o que alguns disseram, destacar o influxo dos revoltosos anos 60 e 70 não significa que a Igreja se desculpe a si mesma através dos investigadores que contratou. O extenso estudo (150 páginas) assinala também, entre os múltiplos factores que provocaram a crise, a tardia reacção dos responsáveis eclesiásticos, que se preocuparam mais em evitar a publicidade e atender psicologicamente os culpados dos abusos do que em ajudar as vítimas. Isto, que era sabido, contribuiu para que a crise se prolongasse, mas não explica como tudo começou.

Os investigadores encontraram-se perante um fenómeno singular. No período abrangido pelo estudo, 1950-2010, os casos de abusos começaram sendo à volta de cem por ano, multiplicaram-se rapidamente até 1960, chegaram a cerca de mil ao ano nos anos setenta e oitenta, e tiveram uma queda ainda mais pronunciada que a subida, sobretudo desde 1985 (ver gráfico). Desde os princípios dos anos noventa estão abaixo do nível inicial. Como se vê, houve uma "explosão" temporal dos abusos. O que se passou naqueles anos?

O celibato não tem culpa

A causa não pode ser, diz o relatório, nem o sacerdócio exclusivamente masculino nem o celibato, custe o que custar ao que alguns disseram: como um e outro permaneceram antes, durante e depois da crise, não puderam provocá-la.

 Falharam claramente a prevenção e a vigilância, pois a maioria dos abusos não vieram a público senão muitos anos depois 

Também não houve uma "epidemia" de pedofilia. Entre os acasos de abusos, os de pedófilos (atraídos por crianças impúberes) são uma pequena minoria cujo número se manteve praticamente constante durante os 60 anos estudados. Pelo contrário, a maior parte, que são os que abusaram de adolescentes masculinos e os que abusaram de jovens de um e outro sexo, seguem a evolução geral, com uma descida rápida nos anos sessenta e a queda nos anos oitenta. Por outro lado, a tipologia dos abusadores apenas revela rasgos (psicológicos, patológicos...) que os distinguem claramente dos outros sacerdotes.

Por isso impõe-se a hipótese de que foi a crise de uma época. Mas não a da geração formada naqueles anos confusos, mas sim de alguns sacerdotes de distintas gerações que viveram então. Quase metade dos abusadores foram ordenados antes dos anos sessenta, e portanto não os afectou o desleixo nos seminários iniciado nesse período. Foi algo próprio daquelas décadas que influiu nos sacerdotes de diferentes idades e formação. E o que os inclinou a cometer abusos não foi uma única causa, mas sim um conjunto complexo de factores.

Anos confusos

Os anos da crise, assinala o relatório, coincidem com uma espécie de abanão na sociedade, com mudanças rápidas de critérios em âmbitos como a família, a realização individual ou a sexualidade. Essa mesma época, segundo os inquéritos disponíveis, é a de menor satisfação dos sacerdotes com o seu ministério e a de mais abandonos. Nesse ambiente geral, diversas circunstâncias pessoais favoreceram que alguns começassem a abusar de menores.

Como já foi dito, não se encontra nenhum factor que resulte estatisticamente determinante; mas alguns são mais frequentes entre os sacerdotes acusados. Numa parte dos casos, influíram situações de tensão por sobrecarga de trabalho ou outras dificuldades em condições de isolamento e falta de apoio por parte doutros sacerdotes. Um sintoma assinalado no estudo é que naqueles tempos muitos sacerdotes abandonaram a direcção espiritual.

Em relação a características pessoais dos sacerdotes que cometeram abusos, entre as que apresentam alguma relevância estatística está o ter recebido pouca educação sexual em família, coisa que é mais frequente nos ordenados antes dos anos sessenta. Outra é terem sido eles mesmos vítimas de abusos sexuais quando eram crianças ou adolescentes; mas ainda que isso tenha uma forte relação com o cometer abusos, são poucos os sacerdotes que estão nesse caso.

Falhou a prevenção

Iniciada a crise, a inacção ou fraca resposta por parte das autoridades eclesiásticas favoreceu que se prolongasse, mas na realidade não foi tão decisiva. Como anota o relatório, em 1985 - ano em que os abusos começaram a diminuir muito rapidamente - tinham acontecido já 80 % dos casos, mas só se tinham denunciado às dioceses 6 %. Portanto, em grande parte, o problema durante a própria crise não foi que não tivessem sido castigados com decisão os abusos, mas sim que não eram conhecidos. Mais grave que a falta de repressão foi o da prevenção e da vigilância.

Nisto, por sua vez, teve muito que ver o ambiente de então, de pouca transparência, que protegia mais os investidos em autoridade que as vítimas. Pois em todos os casos, os menores que sofrem abusos tendem a calar por medo ou vergonha se não têm alguma pessoa de confiança com quem falar ou prevêem que não acreditam na denúncia.

É significativo que no período 1950-1984 as dioceses recebessem só 810 denúncias, mas cerca de metade foram feitas pelos pais ou outros familiares das vítimas; além do mais, quase 60 % do total chegaram menos de um ano depois dos factos e três quartos, antes de dois anos. Como logo resultou claro, até então só havia falado uma pequena minoria. A partir de 1990 foram apresentadas milhares de denúncias, na sua maioria pelas próprias vítimas, já adultas, ou pelos seus advogados, e com uma dilação média de 20-30 anos.

Mudança de mentalidade

A outra grande incógnita que o estudo apresenta é como acabou a crise. Aqui também não se descobre a pólvora. Entre outros factores, o estudo atribui bastante importância à introdução de programas de formação humana no plano de estudos dos seminários a partir dos anos oitenta. Essa medida, que depois se reforçou na aplicação da Exortação Apostólica Pastores dabo vobis de João Paulo II, pretendia capacitar melhor os sacerdotes para as exigências da castidade e do celibato. E com efeito, assinala o relatório, o desenvolvimento de tais programas coincide com a diminuição dos abusos; mas a descida tinha começado antes.

Também influiu a mudança da mentalidade social, com uma consciência mais viva da gravidade que revestem os abusos de menores. Para isso contribuiu o activismo das vítimas, que deram a conhecer os seus sofrimentos. De qualquer modo, também o aparecimento destes factores é vários anos posterior ao começo do decréscimo dos abusos, e portanto em parte independente deles. Sem uma reacção nem umas campanhas tão fortes, os abusos de menores diminuíram também noutros âmbitos, ainda que não tão rapidamente como na Igreja católica.

Nova transparência da Igreja

Ao tentar esclarecer as causas da crise de abusos sexuais na Igreja dos Estados Unidos, os investigadores do John Jay College encontraram-se com a dificuldade de não ter pontos de comparação para identificar o específico do caso católico. "Nenhuma outra instituição - diz o relatório - levou a cabo um estudo público dos abusos sexuais e, em consequência, não há dados comparáveis aos reunidos e dados a conhecer pela Igreja Católica".

As recomendações do estudo centram-se na prevenção. Os investigadores sublinham a necessidade de evitar ocasiões; que os sacerdotes não se encontrem em circunstâncias que favoreçam a intimidade de modo impróprio com crianças. Também insistem em que se apliquem plenamente as directrizes aprovadas pela Conferência Episcopal e a Santa Sé. A Igreja, diz o estudo, reagiu, mas as mudanças necessárias ainda não estão completas.

 

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Rafael Serrano