No Brasil, as reacções conseguiram que se retirasse um programa que pretendia a "normalização" da homossexualidade.
As reacções cívicas parecem demonstrar que a ideologia de género continua a ter muitos detractores e, longe de ser aceite de maneira geral, gera uma resposta de pais e educadores. Uma carta na imprensa da ex-ministra democrata cristã, Christine Boutin, pedia ao actual ministro da Educação a recolha dos manuais da disciplina Ciências da Vida e da Terra, por incluir conteúdos "inspirados explicitamente na teoria de género" e não respeitar "a neutralidade dos valores republicanos", que a autoridade pública deveria defender.
"Como se pode apresentar num manual, que se considera científico, uma ideologia que consiste em negar a realidade: a alteridade sexual entre o homem e a mulher?", interroga-se a ex-ministra. Segundo Boutin, os novos livros didácticos nem sequer respondem às linhas traçadas pelo sistema educativo para a disciplina, que indicam "compreender as componentes biológicas principais do ser masculino e feminino".
Em França, invoca-se a neutralidade dos valores republicanos para que não se doutrine os jovens com a ideologia do género.
"O Ministério da Educação - adverte Boutin - não deve ir além da sua missão, que é instruir dentro da neutralidade dos valores republicanos e no respeito pelas crenças dos alunos e suas famílias, e não ensinar, conferindo-lhes um estatuto pseudocientífico, teorias sobre o ser humano e a sexualidade".
A carta de Boutin, que se junta a um movimento de famílias católicas em campanha contra os livros recentemente aprovados, chocou frontalmente com associações de investigadores em estudos de género, que vêem nos protestos uma tentativa de impor censuras políticas "inaceitáveis" às linhas de trabalho dos cientistas, que só poderiam ser julgadas - dizem - por outros profissionais similares. Na opinião dos cientistas, invocar a "liberdade de consciência das famílias" e a responsabilidade dos pais na educação dos filhos não tem nenhum sentido.
Numa tribuna aberta publicada no Le Monde (14-06-2001), Florence Rochefort desqualifica as críticas como se fossem uma tentativa de perpetuar as desigualdades, ou de impor ideias de natureza religiosa diante do enfoque científico. "A ciência - diz - une-se aqui ao feminismo: Não se nasce mulher, nem tão pouco homem, chega-se a sê-lo. Em democracia, a anatomia não é um destino". Mas os grupos que aderiram ao seu artigo são dois ou três de uma só tendência: associações de estudos feministas e de género.
Retirada no Brasil
Tal como a ex-ministra francesa, os pais brasileiros também consideram que lhes corresponde a última palavra na educação dos seus filhos. O programa "Escolas sem homofobia" - auspiciado pelo Ministério da Educação e o da Saúde, a que o governo destinou uma quantia superior a um milhão de dólares -, teve de ser retirado, ao comprovar-se que os materiais da campanha estavam projectados para que as crianças e adolescentes aceitassem activamente a homossexualidade.
Quando começaram a conhecer-se os materiais preparados para esse programa, houve fortes protestos, através da Internet e no Parlamento. Um grupo de 74 deputados de igrejas evangélicas, que apoiam o governo, ameaçaram retirar o seu apoio. Os ministérios implicados defenderam-se, dizendo que o material ainda não tinha sido aprovado e que tinha sido elaborado por ONG que cooperam com o governo. Quer dizer, dá a impressão que estes grupos estavam a tentar difundir as suas próprias ideias, aproveitando os meios do governo.
A força cada vez maior das posições a favor da vida e da família entre os eleitores desse país levou a presidente a eliminar o programa e a comprometer-se perante situações futuras: "o governo pode mostrar que é necessário respeitar as diferenças", assegurou, "mas não interferir nas vidas privadas das pessoas ou autorizar políticas públicas para defender posturas concretas", declarou a presidente Dilma Rousseff depois de impedir a campanha.
Contra a imposição na ONU
As reacções contrárias ao novo conceito de género também protagonizaram as conclusões da 55ª comissão sobre os estatutos da mulher do Conselho Económico e Social das Nações Unidas, no passado mês de Março em Nova York. O observador permanente de Santa Sé, Francis Chullikatt, denunciou nessa ocasião "mais uma tentativa de impor a ideologia de género" nos documentos propostos para assinatura, ao modificar-se o uso corrente de género, equivalente a sexo feminino ou masculino, por outro mais radical, que favorece uma identidade sexual mutável.
O observador vaticano também explicou que, se as nações Unidas incluem e generalizam essa visão de género, põe-se em causa o sistema de direitos humanos, pois perdem-se as referências da Declaração Universal que os reconheceu - que fala, sim, da dignidade da pessoa como homem e mulher - e, como consequência, o direito dos pais à educação dos filhos, que essa mesma declaração também inclui.


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Maternidade e ética – um desafio para a mulher