O novo programa para o iPhone criado para facilitar a confissão agitou a rede. Aqueles que viam uma oportunidade de fechar os confessionários tiveram uma decepção ao ouvir o porta-voz da Santa Sé, Frederico Lombardi, dizer que a confissão requer "a absolvição por parte do confessor presente". Mais do que polémica, o interesse suscitado por este programa - um de tantos - dá que pensar.

Quando Patrick Leinen, da empresa Little iApps, decidiu criar um programa para iPhone, iPad e iPod Touch para facilitar a confissão "àqueles que já frequentam este sacramento e àqueles que desejam tornar a recebê-lo", não podia imaginar que o seu programa despertaria tanto interesse na rede.

Confession pode ser descarregado no iTunes por 1,99 dólares (1,59 euros). Trata-se de um guia que pode servir a alguns para preparar a confissão: exames de consciência, actos de contrição... Sempre a mesma coisa mas em formato app.

Por isso, tanto alvoroço mediático dá que pensar. A começar, surpreende que aquilo que no princípio parecia um produto "só para católicos" tenha tido tanto eco em alguns jornais de reconhecido prestígio laico.

A notícia começou a aparecer em princípios de Janeiro. Primeiro, alguns media dos Estados Unidos e britânicos deram a conhecer o novo programa. Depois chegou a notícia de que algumas autoridades eclesiásticas tinham dado aval ao guia, se bem deixassem claro que o programa não substituía o sacramento da confissão.

A partir daí, alguns deram um triplo salto mortal para lançar nos seus blogs ou nos seus twitters a mensagem que na realidade queriam ouvir: "Confessa-te ao teu iPhone ou ao teu iPad com a bênção da Igreja" ou "A Igreja católica aprova confissões mediante o iPhone/iPad. Também houve jornais que contribuiram para acalorar o ambiente: "Confessar os teus pecados? Há um app para isso" (The Washington Post, 9-02-2011).

Interrogado numa conferência de imprensa sobre esta polémica, o porta-voz da Santa Sé, Frederico Lombardi, lembrou que "o sacramento da penitência requer a relação de diálogo pessoal entre o penitente e o confessor assim como a absolvição por parte do confessor presente", pelo que "não pode ser substituída por um programa informático".

De passagem, recordou que este tipo de recursos devem ter "uma verdadeira utilidade pastoral e não se pode tratar de um negócio alimentado por uma realidade religiosa e espiritual importante como um sacramento".

Há quem não perdoe nada à Igreja. Alguns indignaram-se muitíssimo: "O Vaticano proíbe a confissão através do iPhone", "O Vaticano veta a ciberconfissão"...

Mas a Igreja mostra a sua sabedoria ao não se deixar arrastar pela moda que converte em virtual todo o tipo de relações que sempre foram reais, desde a amizade às relações sentimentais ou ao jogo.

Uma pessoa nunca pode ter a certeza se o Apple lhe perdoou, mas se um sacerdote lhe der a absolvição, já não dúvidas. E não custa 1,99 dólares.

Também parecem exageradas as queixas dos que lamentam que Lombardi tenha deixado passar o comboio. "A conclusão é rotunda: os que assessoram o Papa perderam uma grande oportunidade de se ligar - nunca melhor dito - com os sinais do nosso tempo", escreve La Vanguardia, 11-02-2011.

Não é fácil saber quais são esses sinais. Mas, à vista do interesse mediático que suscitou o episódio, tudo aponta que a necessidade de procurar o perdão divino tem eco no hit parade das preocupações do homem contemporâneo.

Juan Meseguer