O sétimo filme baseado no romance de Pierre Boulle La planète des singes estreou-se com aplauso da crítica e bom sucesso de bilheteira. A excepcional apresentação dirigida por Franklin J. Schaffner na primeira versão (1968) introduziu a inquietante hipótese (distopia) de um mundo subjugado por gorilas e chimpanzés. A película de Schaffner continua em vantagem sobre as seis seguintes: não só porque é a mais ajustada à obra de Boulle, mas também pela soberba interpretação de Charlton Heston.

Até agora, as causas do declínio humano e do desenvolvimento simiesco, dentro desta saga, relacionavam-se com a guerra nuclear e com o curioso paradoxo apresentado em Fuga do Planeta dos Macacos (1971) a cargo do doutor Otto Hasslein (Eric Braeden). Na versão de Tim Burton (2001), a explicação era tão sucinta, que o enredo mal tinha interesse.

Por seu lado, em Planeta dos Macacos - A Origem, a investigação científica acerca dos sistemas neuronais adquire uma densidade suficiente, que serve como ponto de partida verosímil. Na sua busca de um remédio contra o Alzheimer, o jovem cientista Will Rodman (James Franco) inventa um fármaco que revoluciona a inteligência do macaco. A partir daqui, a história do chimpanzé César (Andy Serkis), dotado de consciência, orienta-se no sentido de capitanear uma rebelião contra o ser humano.

O filme usa de forma maravilhosa os efeitos visuais de Avatar e O Senhor dos Anéis, pelo que os movimentos dos símios resultam absolutamente credíveis. Neste sentido, destaca-se notavelmente das versões precedentes. Ao mesmo tempo, Planeta dos Macacos - A Origem inclui um argumento paralelo que, revelado no final, ameaça o futuro da espécie humana.

No entanto, a esta longa-metragem retira força o abuso das caracterizações maniqueístas, assim como do sentimentalismo. Além disso, o piscar de olho a outros filmes da saga torna-se cómico e até crispado. Chega-se a extremos ridículos com pequenas referências (ou plágios?) a Shakespeare, em especial um recurso a O Rei Lear, que Kurosawa pintou no seu Ran (1985).

O Planeta dos Macacos - A origem abunda em clichés: a sociedade farmacêutica como sinónimo de lucro imoral; as jaulas para animais como analogia de prisão; a passagem injusta pela cadeia como etapa de maturidade de um líder, etc. Além de que, neste filme, o drama da relação entre humano e símio fica muito aquém do conseguido em Gorilas na Bruma (1988), com Sigourney Weaver, e Instinto (1999), com Anthony Hopkins, já por si discutíveis.

planeta dos macacos
Vários lances decisivos do processo narrativo tornam-se pouco ou nada credíveis: o nascimento de César, que passa desapercebido num laboratório de última tecnologia; o mecanismo de contágio e expansão de uma pandemia; a repentina versatilidade e bipedismo dos símios; as nulas consequências judiciais contra Will Rodman por causa da primeira agressão de César, etc. Também passam sem comentário algum as diferenças genéticas entre chimpanzé, gorila e orangotango, que desbaratariam a eficácia do fármaco de Rodman, à hora de os tornar inteligentes.
 
Contudo, o Planeta dos Macacos - A origem contém alguns esboços chamativos sobre a origem e a natureza do ser humano. Tal como em A revolta dos símios (1972), aqui relaciona-se o despertar do macaco com a violência e a falta de dignidade, como fábula ou metáfora do próprio homem. Por isso, e recordando o Génesis e o "non serviam" (Jeremias 2,20), a primeira palavra que pronuncia o símio é "não". A partir daí, vem o assassinato, como no caso de Caim, e uma independência tendente à destruição, cheia de conflitos e lutas.

José Maria Sánchez Galera 


(V) - Violência