- Pode-se falar realmente de doença quando nos referimos à infertilidade?

- Não existe uma patologia que seja a infertilidade. De facto, há muitos casais que não podem ter filhos e não têm nenhuma patologia concreta. Trata-se mais de uma deficiência. Sim, existem algumas patologias que provocam infertilidade, cuja origem se desconhece em 30% dos casos. Mas não faz sentido considerar-se doente por não poder ter um filho.

- Qual dos factores que provocam a infertilidade é o mais importante?

- Na realidade, o factor mais influente é na nossa sociedade ter os filhos quando mais convém. Não é só uma questão laboral, porque há pessoas que bem cedo têm um bom trabalho. Essas pessoas querem estabilidade e "gozar" a vida e preferem adiar o momento de ter filhos. É sintomático que haja gente que usa as técnicas de reprodução artificial e guarde os seus embriões para os implantar mais tarde, ou os seus óvulos para os fecundar depois.

O filho como objecto de desejo

- Então, a qualidade de vida a que aspiramos converte-se paradoxalmente numa causa indirecta de infertilidade?

  "Quando os casais iniciam um processo de reprodução medicamente assistida, as suas vidas deixam de lhes pertencer, estão constantemente cronometrados e cheios de punções, ciclos, etc."

- Numa sociedade de consumo como a nossa, os filhos também se vêm nessa óptica. Quando se encontram casais que não podem ter filhos e que chegam até processos de reprodução artificial extremos ou com casais que não os querem podendo tê-los, dá-se conta que esse filho é visto como um bem mais dos que aqueles que se conseguem mediante um processo reprodutivo.

De facto, isso é o que se verifica amiúde em técnicas de reprodução medicamente assistida. Quando os casais iniciam esses processos, as suas vidas deixam de pertencer-lhes, estão constantemente cronometradas e cheias de punções, ciclos, etc. Um calendário em que manter relações não importa, só importa o futuro, um futuro que, por outro lado, é incerto.

Muitos destes casais, se não conseguem ter um filho - algo habitual porque somente um de cada quatro o consegue -, caem num estado de frustração tremendo.

- Passamos de dizer em tom de brincadeira "encomendaram um filho" a encomendá-lo mesmo?

- Não só isso, mas há pessoas que pela idade preferem recorrer à fecundação in vitro em vez de arriscarem ter um filho com alguma deficiência. O desejo de alguém não pode converter algo numa doença. Esta mentalidade faz muito mal aos casais que querem ter filhos e não podem, porque quando chegam a esse sentimento de doença, de frustração, já é muito difícil a solução. A mensagem que deve ser transmitida é uma mensagem positiva. Há muitos bens a que aspiramos e que não podemos alcançar. Com os filhos passa-se o mesmo. São algo de muito bom e há que fazer o possível por tê-los, mas se não se têm não se acaba a vida, há que viver feliz sem filhos.

- Esse recurso à técnica com o fim da procriação é compatível com a dignidade do ser humano?

- Não, porque as técnicas de reprodução medicamente assistida substituem o acto unitivo próprio da relação entre pessoas e, além disso, porque reduzem o embrião humano a uma coisa e provoca-se a morte de muitos deles. Em troca, se o casal recorre ao médico a procurar ajuda para completar o processo de fecundação nas relações mantidas de modo natural, estaríamos a falar de um procedimento muito diferente. Ainda que neste caso também existam perigos: o de instrumentalizar o acto unitivo com o único fim de ter um filho e o facto do desejo de ter um filho se converter numa obsessão que acabe por condicionar a relação do casal.

Quando se tenta demasiado tarde

- A Segurança Social não comparticipa os tratamentos de fecundação in vitro em mulheres com mais de 40 anos...

- A partir dos 40 anos a percentagem de êxito destes tratamentos reduz-se a 14% depois de quatro implantações. Sob o ponto de vista económico é desproporcionado o gasto que se faz em comparação com a consecução dos resultados, mas o desgaste emocional é muito maior. As empresas privadas não têm o problema económico porque cobram quantias substanciais aos clientes.

- Logo vem o desfasamento de idades...

  "Muitas mulheres querem ficar grávidas depois de ter tomado anticonceptivos durante vários anos, e não conseguem porque tentam em idades em que a sua fertilidade está em declínio"

- Assim é: se uma pessoa se empenha em ter um filho aos 45 anos não pensa realmente no filho porque terá 60 anos quando a criança tenha chegado à maior idade. O mais desejável para um filho é que possa ter uns pais, uns avós, uma família e deste modo não se alcança a sua necessidade.

- Ter um filho é questão de paciência?

- Seria, desde logo, inicialmente. Mas muitas mulheres querem ficar grávidas depois de ter tomado anticonceptivos durante vários anos. Os nervos começam quando vêem que não conseguem, amiúde porque tentam nas idades em que a sua fertilidade está em declínio. A isso soma-se que, geralmente, os médicos aconselham directamente a começar com as técnicas de reprodução artificial enquanto continuam a tentar de maneira natural. O tempo não joga a favor.

Educação sexual

- Pode prevenir-se a infertilidade com a educação sexual?

- As mulheres não conhecem os seus ciclos porque não são ensinadas. A única coisa que sabem é quando têm o período e quando têm que tomar a pílula. Também sabem pouco ao que se refere à evolução da fertilidade ao longo da vida. Muitas mulheres com mais de trinta anos que não conseguem ficar grávidas surpreendem-se quando o médico lhes diz que a sua época de maior fertilidade já passou. Há também mulheres que desconhecem as consequências que pode ter sobre a sua fertilidade o simples facto de seguir uma dieta rigorosa de moda.

- Falamos de falta de educação precisamente quando existe saturação de educação sexual...

- Não há realmente educação sexual. O que há é uma educação profilática, para evitar a gravidez. Nem sequer se educa para desfrutar da sexualidade. A educação sexual deve servir para conhecer-se a si mesmo e conhecer o outro. O actual planeamento educativo da sexualidade carece de uma base antropológica. Fazem falta sexólogos com formação adequada para saber ensinar a partir desta perspectiva.

- Que se poderia fazer para remediar estas deficiências?

- A solução passa por uma mudança de mentalidade na qual a educação tem um papel decisivo. O que toda a gente devia ter claro em primeiro lugar é o que é na realidade um filho. Um filho é um bem, algo a que toda a gente pode ter acesso, é um mero fruto de um desejo? O objectivo deveria ser organizar uma sociedade menos consumista para evitar que as pessoas tivessem uma ideia utilitária dos filhos.

Também, consequentemente, devem ser criadas estruturas que permitam que a mulher que trabalha possa ficar grávida mais cedo, no momento que o seu corpo está na realidade melhor preparado para isso. Muitas mulheres sofrem nos seus trabalho por esta razão.

Álvaro Lucas