Era doutorada em Psicopedagogia pela Universidade de Colónia e em Teologia pela Universidade de Navarra. Autora de mais de 20 livros, alguns deles traduzidos para outras línguas, e colaborou em 70 publicações colectivas. Integrou o departamento de Teologia Dogmática da Faculdade em 1996.

Jutta Burggraf destacou-se pela sua visão positiva dos novos tempos e pela sua empatia para com os outros. Conheci-a pessoalmente num Congresso internacional realizado em Roma há alguns meses. Era uma das oradoras convidadas. Tanto a sua conferência -"Comunicar a identidade cristã numa sociedade pós-moderna"- como a forma de a comunicar publicamente seduziram esse público.

A conferência terminou com um diapositivo um tanto sentimental -só colocou dois em toda a sessão- que mostrava um pôr do sol. Isso, num Congresso dedicado à comunicação, era uma aposta arriscada. E aí esteve o traço de humor.

Mas o "número" não acabou aí. Com o diapositivo em fundo, a professora alemã leu um poema de Nietzsche dedicado "Ao Deus desconhecido". Quando terminou, o público correspondeu ao presente com uma ovação esmagadora.

Penso que o episódio reflecte um pouco do estilo de Burggraf. Se se tinha proposto falar da fé numa sociedade pós-moderna, não seria razoável trazer à colação -com pôr do sol incluído- o filósofo que decretou a "morte de Deus"?

Por ocasião do congresso fiz-lhe uma entrevista sobre como transmitir a mensagem cristã numa sociedade pós-moderna, caracterizada por uma pluralidade de visões do mundo e por uma crescente ignorância religiosa. Disse-me que "para influir no mundo moderno temos de o amar" e que "antes de nos enredarmos em questões controversas, devemos mostrar às pessoas o atractivo das verdades cristãs".

Um diálogo credível

Poder-se-ia dizer que o encanto pessoal de Burggraf estava muito embrenhado na sua teologia, e vice-versa. Por isso, era credível quando falava de temas tão usuais como o diálogo e a convivência entre pessoas de diferentes culturas e credos religiosos.

A professora alemã inclinou-se por temas de estudo onde havia diversas visões do mundo em jogo. A sua preocupação com a unidade dos cristãos está reflectida no seu livro Conocerse y comprenderse (Rialp, 2003).

Com a leitura desse livro entendi pela primeira vez que o "compromisso ecuménico" é algo para dois; um empenho comum que exige conhecer e compreender melhor os nossos irmãos na fé.

Algo parecido ocorreu-me com o seu livro de bolso Cartas a David (Palabra, 2000), onde Mary entra em diálogo com um antigo colega de curso que é homossexual. Embora se trate de um folheto, em alguns sectores ficou melhor reflectida a posição da Igreja católica para com os homossexuais.

Sem esquemas rígidos

Juntamente com a empatia pelos outros, é de destacar a sua abertura de mente. Burggraf soube descobrir os aspectos positivos da sociedade actual, mas também se mostrou crítica com as soluções simplistas.

É o que acontece, por exemplo, nos seus estudos sobre as relações entre homem e mulher. Em contraste com as receitas de um certo feminismo bem-intencionado que prescreve uma distribuição em partes iguais de tarefas no lar, Burggraf prefiriu abordar este assunto sem esquemas rígidos.

Na sua opinião, a convivência no lar é algo mais do que uma distribuição externa de tarefas. O verdadeiramente importante é a "disposição positiva de ambos os cônjuges"; uma atitude interior que se expressa de modos muito diversos "mas deve ficar sempre clara a vontade de partilhar -sejam quais forem as circunstâncias- as preocupações do lar" .

O cristianismo é liberdade

Outro traço do pensamento teológico de Burggraf é o seu empenho em tornar visível a beleza da mensagem cristã; uma mensagem que -como recorda continuamente Bento XVI- tem mais a ver com o amor e a liberdade do que com as proibições.

"Deus não é inimigo da liberdade; muito pelo contrário, é o seu criador, o seu grande amigo e protector. A nossa liberdade é um dom seu", escreve Burggraf no seu livro Libertad vivida con la fuerza de la fe (Rialp, 2006).

Este livro, certamente, constitui uma apologia convincente do cristianismo (embora não seja este o seu principal objectivo), ao mesmo tempo que conduz a ampliar mais a alma do leitor.

Entre outros trabalhos, Burggraf participou como perita no Sínodo Ordinário dos Bispos sobre "A vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo" (1987). Era co-editora da revista alemã Mariologisches, membro do Conselho Científico do Internationaler Mariologischer Arbeitskreis Kevelaer (Alemanha) e membro correspondente da Pontificia Academia Mariana Internationalis.

Juan Meseguer