Lisboa

Certamente por objectivos pastorais que recolocam a Europa no centro das preocupações de Bento XVI, o Papa escolheu este país do Sul, de tradição católica, para uma visita de agenda sobrecarregada. Foram quatro dias intensos, em que os portugueses que se revêem no catolicismo marcaram presença em massa e com muitos sinais de afecto. Hoje, o país está marcado por dificuldades sociais na área do emprego, agravamento fiscal, confrontos ideológicos nos debates e na legislação sobre a família e a vida humana.

A orientação espiritual da visita, tendo o santuário de Fátima como culminar das celebrações, foi vincada logo no voo papal aos jornalistas, referindo claramente que a maior perseguição da Igreja é o pecado no seu interior. Ora, a mensagem de Fátima condensa-se nessa dupla expressão: penitência e oração.

Mostrar-se cristão

Em 2010, no próximo dia 5 de Outubro, celebra-se o centenário comemorativo da República. Num século em que a relação entre a Igreja e o Estado tem passado por momentos críticos, e estão ainda por regulamentar aspectos da última Concordata de 2004, não é tanto a relação institucional que preocupa Bento XVI. A viagem pastoral foi feita também secundando um convite do Presidente da República, anfitrião de todos estes dias. Nas suas mãos está ainda a decisão sobre a promulgação da lei aprovada na Assembleia da República sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Em Fátima, a 12 de Maio, num encontro com agentes da Pastoral Social, manifestou apreço pelas instituições que lutam pela vida e ajudam a curar as feridas do drama do aborto. E exprimiu também como se alegra com os que se empenham a favor da família fundada sobre o casamento indissolúvel de um homem com uma mulher. Aí, foi particularmente forte a exigir a marca da identidade cristã em cada crente, no seu local de trabalho, nas instituições que promove ou em que colabora.

PapalisboaApoiando-se nos oito séculos de história comum deste povo com o catolicismo, referiu em Lisboa, na Missa do dia 11, que não faltando à Igreja "filhos insubmissos e rebeldes,""é nos Santos que a Igreja reconhece os seus traços característicos e, precisamente neles, saboreia a sua alegria mais profunda". E com uma assistência calculada em 80 mil pessoas, o Papa recordou o dever de tornar Deus presente na sociedade, e de contribuir com a sua identidade cultural e religiosa para a edificação da União Europeia. "Glorioso é o lugar conquistado por Portugal entre as nações pelo serviço prestado á dilatação da fé: nas cinco partes do mundo, há Igrejas locais que tiveram origem na missionação portuguesa.

Sereno, sorridente e muito próximo dos mais novos

João Paulo II, com uma história pessoal tão ligada a Fátima, visitou em três ocasiões o país. Até ao dia 11 de Maio a percepção mais generalizada era ainda a de que seria insubstituível nos corações. Mas um só dia em Lisboa foi o suficiente para que "o homem vestido de branco" recebesse, não apenas as chaves da cidade, num gesto simbólico do Presidente da Câmara, mas a entrada de pleno direito na sensibilidade dos crentes e dos curiosos, que acorriam para o ver passar e gritavam. "Viva o Papa!".

O Porto repetiria no dia 14 o mesmo gesto de entrega das chaves, abrindo uma excepção para uma personalidade não-portuguesa, em agradecimento pela projecção da cidade com esta visita.

Na véspera da chegada, em conferência de imprensa, D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa e coordenador desta visita, tinha já dado indicações de que haveria a possibilidade de o Papa falar aos jovens, quer em Lisboa, à janela da Nunciatura, quer no Porto, no fim da Missa. E assim foi Directamente do Terreiro do Paço, duas carruagens especiais do metro levaram os primeiros grupos. E ouviram: "Obrigado pelo testemunho jubiloso que prestais a Cristo, eternamente jovem, e pelo carinho que manifestais ao seu pobre Vigário na terra com esta serenata". E mais carinhosamente: "Viestes desejar-me boa noite (...), mas agora tendes de me deixar dormir, senão a noite não seria boa".

A próxima Jornada Mundial da Juventude de 2011 em Madrid contará por certo com muitos destes jovens que em Lisboa iniciaram já um caminho comum, aumentados também por grupos de Espanha.

Missa no Porto

papaportoO Porto, em pleno ambiente da Missão 2010 lançada pelo seu bispo, D. Manuel Clemente, fez as honras da despedida no dia 14, saindo à rua desde o percurso do helicóptero até à Avenida dos Aliados. Aí teria lugar a Missa, reproduzindo o transepto da Sé e com mobiliário feito em Paços de Ferreira. Os assistentes, calculados em 120 mil, foram convidados a conter o seu entusiasmo durante a celebração. Para dar lugar a um silêncio orante, muito marcado em toda a liturgia dos vários dias.

Ovação da gente da cultura e das artes

papaculturaO encontro com os representantes da cultura foi único que não teve lugar numa celebração litúrgica. O Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, estava ocupado por cerca de 1.400 pessoas. Estavam presentes escritores, professores universitários, músicos, artistas plásticos, investigadores, actores, fadistas. O decano era o cineasta Manoel de Oliveira, que já ultrapassou os 100 anos de idade e foi escolhido para ser o porta-voz da assembleia. Escolheu como tema "A arte e a religião". O Coro de Câmara Gulbenkian acompanhou a sessão, executando peças de dois autores portugueses do século XVII e XVIII.

Surpreendente foi o modo entusiasta como o Papa foi recebido e despedido com palmas, numa situação que seria previsivelmente mais contida por se dirigir também a muitos não-crentes."A dinâmica da sociedade absolutiza o presente, isolando-o do património cultural do passado e sem a intenção de delinear um futuro", disse Bento XVI. E essa valorização do presente confronta-se com a tradição cultural do povo português, marcada pelo cristianismo, exprimindo-se "na crise da verdade, pois só esta pode orientar e traçar o rumo de uma existência realizada, como indivíduo e como povo."

A Igreja deve fazer também uma aprendizagem, "levando a sociedade a perceber que, proclamando a verdade, é um serviço que a Igreja presta à sociedade, abrindo horizontes novos de futuro, de grandeza e dignidade". E reafirmando o caminho de diálogo iniciado com o Vaticano II, explicita como a Igreja "assume e discerne, transfigura e transcende as críticas que estão na base das forças que caracterizaram a modernidade, ou seja, a Reforma e o Iluminismo". Considerando como prioritário na cultura actual, manter desperta a busca da verdade e, consequentemente, de Deus, convidou os homens de cultura: "Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza.".

A cátedra de Fátima

papafatimaEm 12 e 13 de Maio, Fátima contou este ano com 500 mil pessoas. Peregrinações de um pouco por todo o mundo, especialmente Espanha, Itália e Alemanha, marcaram presença. O bispo, D.António Marto, usou palavras do próprio Papa para definir o que é específico deste lugar: "Maria ergueu a sua cátedra para ensinar aos pequenos videntes e às multidões as verdades eternas e a arte de orar, crer e amar". Bento XVI quis já prever 2017, ano do Centenário das Aparições, e afirmou que se "iludiria quem pensasse que a missão profética de Fátima esteja concluída".

Conhecedor como poucos da mensagem de Fátima, de que fez o comentário teológico no ano 2000, veio "como um filho que vem visitar a sua Mãe". Evocando a "mão invisível" que libertou João Paulo II da morte no atentado de 13 de Maio de 1981 e a bala encastoada na coroa de Maria, agradeceu as "orações e sacrifícios que os Pastorinhos de Fátima faziam pelo Papa" e ofereceu a Rosa de Ouro trazida de Roma para o santuário"como homenagem de gratidão do Papa pelas maravilhas que o Omnipotente tem realizado por Vós no coração de tantos que peregrinam a esta vossa casa maternal."

À noite, a recitação do terço na capelinha das Aparições, conduzida pelo Papa foi um ponto alto desta peregrinação. Em oração, esteve também diante dos túmulos dos Beatos Francisco e Jacinta Marto, na antiga basílica. Actualmente, estão também aí os restos da Serva de Deus Lúcia de Jesus, a terceira vidente, que o então Cardeal Ratzinger conheceu ainda como Carmelita em Coimbra.

Falar de Deus sem medo

Neste dia de um Ano Sacerdotal quase a terminar, o Papa disse em primeira pessoa: "vim a Fátima para confiar a Nossa Senhora a confissão íntima de que ‘amo', de que os sacerdotes ‘amam' Jesus e n'Ele desejam manter fixos os olhos". E no encontro da tarde do dia 12 com sacerdotes, pediu-lhes uma verdadeira intimidade com Cristo na oração, a união de forças de uns com os outros e a inquietude de suscitar novas vocações sacerdotais. Sempre a fé, como tema recorrente: não a dar por suposta e atrair a mesma experiência mística dos Pastorinhos, expressa pelo lume e luz, na sua linguagem infantil, que pode ocorrer na normalidade da vida: "Deus tem o poder de chegar até nós nomeadamente através dos sentidos interiores, de modo que a alma recebe o toque suave de algo real que está para além do sensível, tornando-a capaz de alcançar o não-sensível, o não visível aos sentidos". Uma fé que se, nalguns locais, corre o perigo de apagar-se, pode ser mostrada com a vida dos cristãos: "Não tenhais medo de falar de Deus e de ostentar sem vergonha os sinais da fé, fazendo resplandecer aos olhos dos vossos contemporâneos a luz de Cristo".

O Porto mobiliza-se

A previsão inicial da viagem não contemplava esta cidade. No entanto, o bispo D. Manuel Clemente, que convocara todos os cristãos para a Missão 2010, não se conformava com a ideia de deixar partir o Papa sem pisar a sua cidade. Envolvendo toda a sociedade civil e a Câmara local, o Norte pôs mãos à obra, como é seu timbre. E assim, a emblemática Avenida dos Aliados, em frente à Câmara Municipal, recebeu o último banho de multidão destes dias.

Dos 120 mil presentes, sabe-se que também muitos galegos vieram ajudar à festa. E sobretudo, muitos, muitos jovens sempre presentes. Grupos deles passaram a noite inteira a rezar e a animar os que iam chegando. Dois universitários ofereceram um presente útil: uma t-shirt que regista os batimentos cardíacos, fruto de investigação científica local, para monitorizar a saúde do Papa.

Bento XVI fez da tarefa de ser testemunhas de Jesus Ressuscitado uma "missão inadiável", como lhe chamou e explicou como os novos desafio da Igreja são hoje dialogar com culturas e religiões diversas, chegar a novos âmbitos sócio-culturais e tocar os corações."Quanto tempo perdido! Quanto trabalho adiado!".

A multidão saiu muito lentamente da Avenida, como querendo saborear este momento. O Porto, sempre trabalhador, hoje teve um dia diferente.

Participação extraordinária

PapacavacoPortugal fica revigorado destes dias, na feliz expressão do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, que agradeceu de forma sentida, ultrapassando muito a exigência protocolar, a presença do Pastor que indica um caminho e do peregrino sábio, que vai ao encontro dos homens de boa vontade.

Na avaliação do porta-voz da Sala de Imprensa do Vaticano, Padre Lombardi, a viagem foi maravilhosa, com uma participação extraordinária, que excedeu todas as expectativas. Para o Papa, além da dimensão pastoral, terá tido também a dimensão pessoal de um tempo muito rico, de grande interiorização. No aspecto humano, terá sentido o amor e o desejo de encontrá-lo de muitos portugueses.

Bento XVI fugiu ao guião com frequência, sobretudo quando lhe aproximavam crianças ou as via à passagem. Escutava e olhava intensamente. Foi um pai carinhoso, terno e disponível que os portugueses conheceram. Não será fácil apagar essa imagem.

Nestes dias, o Portugal católico falou mais alto. Agora, começa a tarefa de ler cuidadosamente os textos e reflectir sobre eles. E de viver, de acordo com o lema da despedida: "Não cesse entre vós de crescer a concórdia!"

Ana Amaral