Os autores do estudo têm a preocupação de deixar bem claro "que se não trata de julgar o valor relativo de um ou de outro tipo de modelo familiar". Segundo eles, os dados mostram simplesmente que "a resposta dada pela infância tardia ou pela adolescência às alterações nos modelos de convivência dos pais tende a ser negativa". Podemos dizer sem eufemismos que as "alterações nos modelos de convivência" se resumem às separações e aos divórcios, que dão origem a lares monoparentais ou recompostos ("mistos", no estudo). Existem também famílias monoparentais nas quais a ruptura entre os membros do casal se deu muito cedo, não se tendo os filhos apercebido do facto. Em todo o caso, os filhos destes modelos ou formas de família registam, a par de outros problemas, um mais elevado fracasso escolar do que os filhos de casais estáveis ("lares nucleares" no estudo), e não é a primeira vez que isto se observa (cf www.aceprensa.com, 8-05-2002 e artigos relacionados).

Com efeito, o estudo publicado por "La Caixa" mostra que os índices de abandono ou de maus resultados escolares são menores nas famílias estáveis. Nos lares reconstruídos - constituídos por um dos progenitores e um novo elemento - e nos monoparentais, as percentagens são maiores, como se verifica na tabela que se segue. 

Diferentes indicadores de risco de insucesso escolar de acordo com o tipo de família

percentagens

 

Nuclear

recomposta

monoparental

outra

Repetiu

27,4

34,2

33,7

36,8

Não pretende seguir curso universitário

13,9

17,2

16,1

19,5

Pontuação abaixo de desvio típico

17,6

19,4

23,5

34,9

Risco elevado de insucesso

33,2

39,4

41,4

51,9

Fonte: PISA 2003. Elaborado pelos autores de Fracaso y Abandono Escolar en Espana

O estudo refere igualmente o ciclo em que tem lugar o abandono escolar e se tanto o pai como a mãe estão ou não presentes no lar. Neste último caso, é mais habitual verificar-se o abandono escolar nos primeiros ciclos: 61% dos que fracassam não chegam a completar a escolaridade obrigatória, face aos 46% dos que vivem com o pai e a mãe. Por outro lado, o maior volume de abandono escolar nas famílias com ambos os pais presentes verifica-se no ensino secundário.

Ciclo em que se verifica o abandono, por tipo de família

percentagens

Momento do abandono

Tipo de família

Total

 

Pai e mãe

Monoparental

 

Escolaridade Obrigatória:   1º Ciclo

10,8

16,7

12,0

Escolaridade Obrigatória: 2ºciclo

35,6

44,4

37,3

Ensino Secundário / Tecnológico

53,6

38,9

50,7

Fonte: Fracaso y Abandono Escolar en España


A opinião dos professores

Além das entrevistas com os alunos que abandonam prematuramente, o estudo da Fundação "La Caixa" apresenta opiniões de directores e orientadores dos centros de ensino onde se retiraram dos currículos dos alunos os dados considerados causadores do fracasso escolar.

Os resultados do estudo identificam o facto de viver num lar desfeito como a terceira causa do fracasso escolar (51,9%), logo a seguir a "utilidade da formação para a família" (66,7%) e "da classe social dos pais" (55,6%) e ao mesmo nível que o "bairro/zona em que vive".

De acordo com o estudo, a família continua a ocupar os lugares de honra entre as causas que os professores põem em mais destaque, tal como já se verificou em inquéritos anteriores. A alteração mais evidente está na opinião sobre as causas referentes ao sistema educativo. Entre elas, não é já o projecto global dos estudos que suscita maior acordo entre os docentes. Segundo eles, a mais importante é o facto de o sistema educativo não ser capaz de compensar as deficiências de origem sócio-cultural. Neste sentido, os professores denunciam falta de meios para tornar a igualdade de oportunidades uma realidade.

Aceprensa


NOTAS

(1) Mariano Fernández Enguita, Luis Mena Martínez y Jaime Riviere Gómez, Fracaso y abandono escolar en España, Fundación La Caixa, Col. "Estudios Sociales", n. 29.