Tem sido muito comentada em França a sanção imposta pelo Conselho Superior do Audiovisual (organismo regulador da televisão) ao Canal Plus, por ter transmitido os comentários do polémico jornalista Eric Zemmour a propósito da criminalidade e da imigração. "Os franceses de origem imigrante - - tinha dito Zemmour - estão sujeitos a mais controlos policiais que os outros, porque na verdade a maioria dos traficantes são negros e árabes". Perante as críticas levantadas, o jornalista foi convocado para uma entrevista prévia ao despedimento. O mundo mediático exalta-se; os leitores mobilizam-se a favor e contra. Face à reacção desencadeada, é anulada a ameaça de despedimento de Zemmour.

Num artigo publicado em Le Monde (5-04-2010) Christophe Deloire, director do Centro de Formação de Jornalistas, discute se há verdades que não seja correcto mencionar. Recorda que em 2007, sendo ele jornalista do Le Point, pôde verificar, com dados da polícia judiciária, que 60% a 70% dos delitos cometidos em França correspondiam a jovens imigrantes africanos. Explica que, como a delinquência está, pelo menos em parte, relacionada com a exclusão social ou cultural, a estatística não esgota toda a realidade, mas não deixa de ser um facto. Deloire constata que o facto mencionado por Zemmur provocou maior celeuma que outras opiniões suas muito mais discutíveis.

Deloire comenta que "quando se oculta uma realidade, um número ou um facto, mesmo que seja só em parte, e se proíbe o debate, começa-se a destruir a honestidade e a própria ideia de verdadeiro e falso". "A primeira obrigação do jornalista deveria ser coligir todos os indícios possíveis para compreender o mundo e a sociedade, em vez de se armar em pregador ‘responsável' e ‘moralista'".

Deste modo, opina Deloire, seriam também mais populares, pois a derrota da verdade e a crise da liberdade de expressão exasperam os franceses, que já não suportam as lições dadas pelos autoproclamados pregadores. "Sobre a imigração, a delinquência, a globalização, a Europa, os comunitarismos, os conflitos de interesses, etc. os franceses pedem que os meios de comunicação lhes digam a verdade (verdades que podem ser diferentes em função das linhas editoriais) em lugar de se dedicarem a impedir a revelação dos factos nus e crus".

Noutros casos a liberdade de expressão está hoje ameaçada por represálias contra quem se atreve a manifestar opiniões que não são aceites. Nesta linha, Wendy Kaminer, advogada e activista a favor da liberdade de expressão, questiona em spiked-on.line.com(24-03-2010) se "criticar os gays se converteu numa espécie de blasfémia laica".

A título de exemplo, refere dois casos recentes de represálias académicas e profissionais. Julia Ward estava a terminar o master em terapia psicológica na Eastern Michigan University quando a expulsaram por se negar a afirmar que a homossexualidade é moralmente aceitável e por se recusar a entrar num programa de reeducação para corrigir o seu "erro de avaliação".

Donald Mendell, orientador numa escola pública do Maine (Estados Unidos), aparece num anúncio de televisão a apoiar a realização de um referendo que rejeitou a proposta de lei que legalizava o casamento homossexual no referido estado. Invocando o seu aparecimento neste anúncio, outro orientador apresenta uma denúncia contra Mendell no organismo estatal que concede os certificados profissionais, alegando que Mendell violou o código da Associação Nacional de Assistentes Sociais que proíbe "qualquer forma de discriminação" baseada na orientação sexual (o caso está pendente).

Kaminer comenta que casos como estes "reflectem a tendência a confundir a expressão ou a ideologia com a conduta, e a tomar represálias contra pessoas ou grupos cujos pontos de vista são encarados como verdadeira discriminação. Mas equiparar a expressão com a acção também é um truque semântico de quem prefere não reconhecer (inclusive a si próprio) que apoia a censura e a restrição da liberdade de expressão". Nos casos de Ward e Mendell, os denunciantes estão a invocar os códigos de ética profissional como se fossem códigos que proíbem a blasfémia e que permitem castigar como hereges os discrepantes, afirma o advogado da Alliance Defense Fund.

Fonte: Le Monde, www.spiked-online.com