A partir das heranças grega e romana, nasceram, a partir de uma matriz cultural cristã que, juntamente com os inevitáveis erros do homem, desenvolveu uma obra civilizacional decisiva. Neste livro do historiador, Thomas E. Woods, nascido nos Estados Unidos da América, o autor centra-se na apresentação do legado do cristianismo, hoje desconhecido ou, mesmo, negado.

Seguindo a história da Igreja Católica, Woods, demonstra, em capítulos monográficos, o contributo que ela deu à cultura ocidental: a obra civilizadora dos mosteiros na Idade Média, o aparecimento das universidades, as maravilhas arquitectónicas da arte das catedrais, o desenvolvimento da ciência experimental a partir dos finais da Idade Média, as origens do Direito Internacional, os antecedentes da economia moderna na Escola de Salamanca, o desenvolvimento das obras de beneficência quando ainda ninguém se lembrava dos mais pobres, a erradicação progressiva de muitos dos comportamentos desumanos... Em suma, pode ver-se como a fé foi fonte inspiradora de iniciativas e energias para fazer o bem.

Certamente que fez tudo isto, no entanto, não deixa de reconhecer actos graves cometidos, ao longo dos séculos, por alguns dos seus filhos, cujas atitudes a própria Igreja condenou e pelas quais pediu perdão no Jubileu do ano 2000. Contudo, isto não tira nada à realidade daquilo que é exposto neste livro, que não é triunfalista, mas sereno e verdadeiro. A sua conclusão é que «a Igreja católica não prestou a sua contribuição só à civilização ocidental; a Igreja construiu essa civilização». Em contraste com o que escrevi anteriormente é, a meu ver, excessivo, no último capítulo, o seu desprezo pela arte moderna como reflexo de uma cultura sem Deus.

Woods não pretende fazer novas descobertas a partir das suas próprias investigações. Os méritos principais são a sua capacidade de síntese das investigações já publicadas - citando sempre a bibliografia - e a sua eficaz capacidade de expor, com citações e dados adequados. Ele desmonta, deste modo, muitos assuntos que, nos nossos dias, passam por moeda legal em novelas ou romances pseudo históricos e também em livros de teor narrativo. Por exemplo, para quem acredita que a relação entre Igreja e a ciência se resume ao caso Galileu, pode ler, como autêntica novidade, o capítulo dedicado ao nascimento e desenvolvimento da ciência experimental no âmbito da matriz cultural cristã. Actualmente, causa uma certa dificuldade lembrar os erros da civilização ocidental e, não escondemos, os da Igreja Católica. Woods libertou-se desta inibição e, talvez por isso, o seu livro possa ser considerado inovador para os tempos que correm.

Ignacio Aréchaga