Já na Introdução se intenta traçar o perfil de alguém que aliou o equilíbrio e mansidão de carácter a uma fortaleza e segurança fora do vulgar. E, ao longo de catorze capítulos, o leitor é como que levado pela mão a acompanhar esta vida desde a infância até aos seus últimos momentos.
Torna-se difícil interromper a leitura, e não se diga que seja pelo imbricado de situações à espera de ver onde vão dar. Não, o que prende o leitor às páginas é, além da santidade de uma vida que se vai revelando aos poucos, a forma vivencial com que foram narrados os factos. O autor não é mero narrador, torna-se espectador atento: interrompe, por vezes, o ‘discurso' para contar um ou outro episódio em que ele próprio tomou parte, ou que alguém amigo lhe contara. A exposição toma assim mais vida e os factos gravam-se com mais facilidade no interior de quem lê.
Por outro lado, o autor elabora sínteses perspicazes da história recente da Europa ou de algum país em particular (por exemplo descreve a situação política da Itália finda a segunda guerra mundial, altura em que alguns membros do Opus Dei se estabelecem em Roma) ou da própria Igreja antes e depois do Concílio Vaticano II a fim de enquadrar os factos e nos apercebermos da enorme sobrecarga de trabalho que recaiu sobre os ombros de Álvaro del Portillo nessa altura.
Particularmente impressionante é acompanhar pela mão do autor (Capítulo XII) as etapas sucessivas do caminho jurídico do Opus Dei quer em vida do fundador quer, depois, com D. Álvaro. Sem poupar esforços e orações, leva a bom termo, em 1982, a configuração jurídica da Obra como prelatura pessoal, conforme tinha sido "vista" por S. Josemaria desde o seu início em 1928.
Impressionante, também, é ‘assistir' ao trabalho de anotar os escritos do fundador sobre o Opus Dei e a sua vida interior, assistir às numerosas deslocações pelo mundo para estar com os seus filhos em encontros multitudinários, quando a saúde é precária e os anos vão pesando...
No recuado ano de 1939, quando Álvaro del Portillo era um jovem engenheiro, S. Josemaria em carta que lhe dirige, escrevera: "Saxum! Como vejo claro o teu caminho - longo - que tens de percorrer! Claro e cheio, como um campo recamado de espigas. Bendita fecundidade de apóstolo (...)!"(p. 69).
Saxum, rocha: será isso D. Álvaro ao longo de uma vida dilatada e santa, se entendermos por santidade "cumprir o projecto divino que Nosso Senhor tem sobre cada um" (p. 316). É isso que nos revela a leitura desta biografia.
Isabel Cepeda



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