Os dois homens chegam à conclusão de que esse sonho deve estar relacionado com uma missão que realizaram no exército israelita durante a primeira guerra com o Líbano, no começo dos anos oitenta. Ari fica surpreendido por não se lembrar nada desse período da sua vida. Intrigado, decide investigar e falar com velhos amigos e antigos companheiros. As suas recordações começam a aflorar sob a forma de imagens surrealistas.
 
Este documentário de animação - assim lhe chama o próprio realizador israelita - ganhou múltiplos prémios internacionais, entre os quais se contam quase todos os da Academia de Cinema Israelita, os BAFTA e o Globo de Ouro para o filme de língua não inglesa. Nesta mesma categoria aspirou ao Óscar deste ano. Trata-se de um relato em grande parte autobiográfico sobre a participação do próprio realizador e guionista nos factos narrados. Mas é evidente que fica "em dívida" com o filme Apocalypse Now, e com o romance de Conrad que lhe serviu de base.
 
Folman, realizador amplamente conhecido em Israel pelos seus documentários e trabalhos na TV, conseguiu uma história cheia de impacto, com ambientação e tempo muito adequados. O recurso inteligente ao desenho animado revelou-se de grande eficácia, porque proporcionou ao filme um clima que nunca teria tido se fosse rodado de modo convencional, com imagens de arquivo inseridas.
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O processo técnico é interessante: o filme foi rodado primeiro em vídeo, em estúdio, para depois ser montado como longa-metragem de 90 minutos. Com base neste material elaborou-se um storyboard com 2 300 desenhos originais. Seguidamente, Yoni Goodman animou o storyboard, misturando flash, 3D e desenho animado convencional, sem usar o rotoscópio (técnica para criar desenho animado a partir da imagem real gravada em vídeo). Um modo inteligente de trabalhar e que sai barato: custou apenas um milhão e meio de dólares.
 
O resultado é bastante bom, especialmente pela qualidade da cor e pelo acerto na montagem do som e na música. Além de uma passagem pornográfica absolutamente supérflua, nota-se uma estratégica insistência nos efeitos psicadélicos dos alucinogéneos, que se torna chocante e suspeita, sobretudo se se considera que o argumento é mais politicamente correcto do que parece.
 
Contudo, neste filme paira uma interrogação semelhante à que surge noutros, deste estilo: por que é que tantos alemães não nazis alinharam nas batalhas da Alemanha governada por Hitler?
 
Alberto Fijo

*(V: cenas de violência; X: sexo)