O declínio dos intelectuais humanistas ou, se se quiser, a sua traição, segundo Julien Benda, levou a que alguns cientistas com pretensões intelectuais (o que não é o caso da maioria dos cientistas, que se dedicam pacificamente às suas próprias especialidades) julgassem estar capacitados para decidirem, em termos de última palavra, sobre o humano e o divino.
O conhecido livro do romancista e cientista C .P. Snow (1905-1980), As duas culturas e a revolução científica, de 1959, revisto em 1963, deplorava a falta de entendimento entre intelectuais "literários" e intelectuais "científicos", embora inclinando a balança a favor destes últimos. Defendia uma "terceira cultura" de síntese...
Isto é o que promove nos Estados Unidos um editor científico, John Brockman, mas, mais uma vez, menorizando os "literários" e advogando que os "empíricos" escrevam os seus próprios livros de divulgação, dando a conhecer a verdadeira visão do cosmos e do homem. Numa entrevista que se pode ler na Internet, diz Brockman: "A Terceira Cultura é formada por pessoas do mundo empírico que utilizam as ferramentas e os desenvolvimentos da ciência para explicar o que e quem somos. A ciência é a única notícia." Assim, nada mais.
Uma plataforma
Em Espanha foi apresentada em Novembro de 2008 uma web com esse nome de Terceira Cultura, para divulgar a grande mensagem. Nela podemos ler coisas deste estilo: "Mesmo as sociedades chamadas democráticas recuperam o seu compromisso com a fé revelada. Fala-se, por exemplo, de políticas baseadas na fé ou de uma laicidade positiva que desvirtua o verdadeiro laicismo. (...) Líderes da opinião pública, governantes e intelectuais falam constantemente de respeito pelo sagrado que às vezes oculta medo e servidão perante o terror".
Roça-se o ridículo quando se afirma: "Sob os auspícios de líderes supostamente progressistas, o Vaticano e Riade (Arábia Saudita) unem forças numa nova Santa Aliança contra o terrorismo, mas também contra o secularismo e os valores clássicos do Iluminismo. (...) Precisamos de libertar o projecto do Iluminismo da humilhação teocrática".
Na mistura espanhola encontram-se, entre outros, Fernando Savater e Eduard Punset. Não se chega a esclarecer se são a favor desse "humanismo secular" defendida em terceracultura.net deste modo: "O humanismo secular é uma corrente do pensamento ético que pretende apoiar-se na ciência e na razão crítica, como alternativa ao fundamento transcendente ou místico dos valores. O humanismo secular fundamenta-se num compromisso com a vida humana cujo sentido não radique num ilusório "além", mas no vínculo com as outras pessoas e no conhecimento da natureza".
A compulsão de classificar
A primeira coisa que devemos estranhar é a sobrevivência de uma antiga mania: a compulsão por classificar e periodizar. Isso tem uma componente utópica, como em Joaquim de Fiore (1132-1202), que dividiu a história em idade do Pai, do Filho e, a futura e perfeita, do Espírito Santo. Isso transforma-se, no positivista século XIX, na "lei dos três estádios", de Augusto Comte (1798-1857 teológico, metafísico e científico ou perfeito. Estádio científico: nada acrescentam, pois, Snow, ou Brockman ou os da Terceira Cultura. A primeira cultura, já do passado, seria a religiosa e mística; a segunda cultura, também já depauperada, é a filosófica e literária; mas a terceira, radiante, definitiva e que tudo explica, é a cultura científica.
Para esta Terceira Cultura, os verdadeiros intelectuais são os cientistas; não é em vão que colocam como frontispício da web a frase de Darwin de que "o conhecimento do babuíno fará mais pela metafísica do que Locke", o que só demonstra que Darwin tinha uma ideia muito limitada do que é metafísica, além de ignorar que há melhores metafísicas do que a de Locke.
Continuar a perguntar
Perante todas estas considerações, a primeira pergunta que surge é: e aí termina tudo? O que se passa com a quarta idade, o quartoestádio, a quarta cultura? Ou porque não uma quinta? Quem tem a capacidade de se situar acima da história e fazer o resumo do passado ao mesmo tempo que vaticina o futuro? Como se sabe que aqui termina a história e que não haverá mais "estádios"?
Não há dúvida de que a ciência experimental, as ciências da natureza, tem contribuído muito para o conhecimento do mundo e do homem, e que, graças às suas aplicações, a vida humana melhorou de forma assombrosa; mas, em contrapartida, o que têm essas ciências a dizer sobre perguntas tais como: qual o sentido da vida humana, ou porque é que o coração humano, conhecendo o bem, se inclina tantas vezes para o mal, ou porque são massacrados inocentes, ou porque continua a haver escravatura...? O mais que essas ciências conseguem afirmar é que a vida humana é algo de acidental no Universo, que aconteceu por acaso. Ora, o que é o acaso senão o nome que damos à nossa ignorância?
Modestos perante a história
Além disso, porquê procurar o confronto? Se formos modestos perante a história, ambiciosamente modestos nas nossas pretensões de verdade, sabendo que cada porta+ que abre a ciência dá lugar a muitas outras interrogações, a atitude correcta, racional, moral, e humana, deveria ser não a de opor certos conhecimentos a outros, mas sim a de gerir, se for possível, .toda a gama de possibilidades, todos os métodos, todas as aproximações à verdade, à bondade e à beleza do mundo.
Há dois tipos de espíritos, já o dizia Pascal: o espírito de geometria e o espírito de finesse, a finura de espírito. É o primeiro que, na sede de racionalizar, enquadra, classifica, e, se for desvirtuado, pode chegar ao patológico, que exclui e condena. O segundo percebe, como Shakespeare, que "há mais coisas entre o céu e a terra do que ensina, Horácio, a tua filosofia" (ou a tua ciência). A realidade, que nunca poderá ser estudada até às suas últimas implicações, não tem arestas rectas e rígidas, mas franjas. O racionalista não sabe o que fazer com elas, mas aquele que possui o espírito de finura vê nelas os símbolos de algo mais do que o imediato; o mesmo "algo mais" que se expressa tanto na arte, como nas mais básicas observações da religião.
A estas pessoas ligadas à Terceira Cultura não lhes veio à cabeça atacar a arte, ou dizer que está superada, dada a existência de uma ciência avançada. Mas fazem-no em especial contra a religião, porque é aí onde está o segredo do seu ódio mal dissimulado
É sempre triste ver a miopia auto-proclamar-se como a visão mais profunda, ainda que não haja perigo de que a religião sofra com estas curtas vistas da Terceira Cultura, pois, como salientou Henri Bergson, a religião é algo que permanece porque "pertence à própria estrutura do ser humano".
Rafael Gómez Pérez



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