Na mesma altura em que se discutia no Parlamento o projecto de lei, teve lugar uma manifestação pacífica de mulheres, na qual se exigia a reserva de 14 lugares para as mulheres, dos 128 deputados que fazem parte da Câmara dos representantes. Já fora entregue uma petição em 1995 e 2003, ambas sem quaisquer resultados positivos. Presentemente, só seis desses lugares são ocupados por mulheres .
As mulheres são em maior número na população do Líbano (54%). Constituem 28% da força de trabalho do país. Há mulheres em quase todas as profissões: cargos directivos, professoras universitárias, chefes de departamentos, médicas, e um vasto número de mulheres em cargos administrativos, pessoal especializado em pedagogia, inclusivamente, no exército e na polícia que pertencem ao sexo feminino. Por que é que essa percentagem tão alta não se reflecte na realidade política?
Vários jornais e sites na Internet que se dedicam ao estudo do papel da mulher na sociedade, explicam que a classe política no Líbano é constituída por clãs. As mulheres que chegaram a deputadas, foram-no como tributo ou homenagem a um pai ou marido falecidos e com o objectivo de manter uma linha de continuidade para os filhos. Ma espécie de representatividade hereditária. É este estilo de designação que não deixa de levantar críticas.
Uma análise efectuada em 1995 a partir de testemunhos de mulheres árabes que participam em assuntos públicos prova que elas são capazes de alcançar as suas metas políticas em mais de 80% das ocasiões em que tentam, sempre que têm uma visão e um objectivo claros.
Os obstáculos com que se defrontam são, na maior parte das vezes, sociais, culturais e materiais, não estando propriamente associados à sua presença no Parlamento» - é assinalado na Net por Hana Al Hadidy (1).
Tudo indica que, se se propuser, a mulher pode chegar, numa sociedade árabe, a ser eleita.
Este facto, pode comprovar-se no Parlamento da vizinha Síria, em que a percentagem de deputadas é de 12,4% e, no Iraque, a percentagem de mulheres está no topo, com 25%. Em contrapartida, o Líbano regista uns míseros 4,7% de mulheres, abaixo, também, da Jordânia (6,4%) e acima do Egipto (1,8%). No conjunto, a média de mulheres nos parlamentos árabes é de cerca de 9,7%.
Ao ouvir o xeque Fadlallah, clérigo xiita, que insistiu recentemente para que as libanesas se envolvam na política, é possível que se registem alterações na composição do próximo Parlamento no país dos cedros.
De acordo com a opinião de uma deputada eleita em anteriores disputas (2005), as dificuldades que uma deputada sente são mais do que as que um homem sente. Para além de ter de superar a mentalidade dominante, que a leva a ter de demonstrar, continuamente, o seu valor, deve desenvolver a arte da negociação política e ser suficientemente forte ao ponto de poder pôr a sua vida em perigo, num país em que ainda se pratica a violência política.
Uma questão de prioridades
Um programa efectuado pela União Europeia procurou dar mais visibilidade à mulher na vida política do país (2). Foram feitas sondagens muito pormenorizadas, tendo sido inquiridos diferentes grupos de mulheres, de zonas urbanas e rurais, de idades e níveis de educação variados. Na conclusão, o autor assinala que a questão do acesso da mulher à vida política, não parece preocupar as libanesas, pelo menos para já. Embora a grande maioria das entrevistadas admita que poderia aceder a um cargo político, na altura em que tivesse de escolher entre carreira política e educar os filhos, não tem a mínima dúvida que escolheria a família. Tendo em conta as dificuldades no panorama público do país, uma grande proporção das mesmas mulheres que foram entrevistadas considera não ter capacidades para competir com o homem neste campo e que, inclusivamente, no caso de ter de optar inclinar-se-iam para um candidato.
Num sistema eleitoral como o do Líbano, em que no Parlamento são reservadas quotas por confissão religiosa, seria mais uma complicação adicional estabelecer uma quota, também, por sexo. Uma norma deste género pode acabar por ser mais difícil do que nos outros países. Até à data, nenhum partido político apresentou à presidência uma mulher.
A mulher é capaz de chegar, mas não parece estar muito interessada. Ainda não. Nayla Moawad, deputada, antiga Ministra dos Assuntos Sociais, considera que há ainda muito que fazer para que o conceito de democracia chegue às mentalidades. Em primeiro lugar, à das mulheres.
De qualquer maneira, há assuntos que dizem mais respeito às mulheres e que exigem representatividade para que sejam defendidas. Há aspectos que estão a ser objecto de opinião e sensibilização como, por exemplo, aquele que impede a mulher libanesa de transmitir a sua nacionalidade aos seus filhos. Já existe no Facebook um grupo de debate («Your Lebanese nacionality»), que conta com 3.705 membros para discutir a lei da nacionalidade. Será, talvez, uma maneira nova de obter resultados sem ter de passar pelo sistema político tradicional?
(1) - Al-Hadidy, Hana', 1996. Research on Public Participation of Arab Women, no Al-Hadidy, ed. Al-Mar' Al-Arabiya wa-I-Hayat Al-Ama (Mulheres árabes e a vida Pública), Cairo, Ibn Khaldun Center, pág 59.
(2) A participação da mulher libanesa na vida política, publicação do Programa Nacional, relatório de estudo apresentado por Reach Mass s.a.l.,Abdo Kahi Suzanne Azar, 1997
Helene Daboin, em Beirute



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