A história
Bella tem 17 anos. É uma rapariga normal, um tanto desajeitada e filha de pais divorciados. Quando a mãe volta a casar-se, ela decide ir viver uma temporada com o pai, que é polícia em Forks, uma pequena povoação de clima gélido. Bella começa a ter aulas numa escola, onde vai encontrar os seus primeiros amigos. Em breve conhecerá os Cullen, cinco jovens estranhos e bonitos - três rapazes e duas raparigas - filhos adoptivos de um médico de renome.Um dos rapazes, Edward, irá exercer sobre Bella particular atracção, em especial a partir do dia em que ele lhe salva a vida e ela descobre que os Cullen afinal são vampiros, que conseguem viver entre os humanos porque se alimentam apenas de sangue animal, graças a um severo auto controlo que procuram manter.A paixão amorosa entre os dois jovens vai crescer a uma velocidade vertiginosa, apesar das dificuldades que encerra a relação com um vampiro poderoso e imortal que "aparenta" 17 anos, mas que já tem um século de vida.
O segundo volume, "Lua Nova", começa com a celebração dos 18 anos de Bella, em casa dos Cullen. Ao abrir um dos presentes, a jovem corta um dedo, o que provoca o ataque de Jasper, um dos irmãos vampiros a quem a abstinência de sangue humano custa mais que aos outros. Edward salva Bella mas decide abandoná-la no dia seguinte, para não lhe tornar a pôr a vida em perigo. Durante meses, a jovem cai num estado de profunda depressão. Neste período de tempo, cresce a amizade entre ela e Jacob, um rapaz robusto, filho de um velho amigo do pai. Mas Bella vai descobrir que, sempre que se encontra numa situação real de perigo, ouve a voz de Edward.
Apesar de todas as dificuldades, "Amanhecer", o último livro da saga, começa com o casamento dos dois jovens, a lua-de-mel e a satisfação do maior desejo de Bella: ter relações sexuais com um vampiro, sendo ela ainda humana. Ainda que em princípio os vampiros não possam ter filhos, Bella fica grávida. Edward procura convencê-la a abortar para evitar o perigo a que se expõe, mas Bella insiste em ter a filha, Renesme, que nascerá entre muitas dificuldades e após um único mês de gravidez.
Havia ainda um quinto livro, "Sol da Meia-Noite", em que Meyer narrava os factos de "Crepúsculo" do ponto de vista de Edward. Mas, devido a uma fuga de informação, os doze primeiros capítulos apareceram na Internet, levando a autora a suspender a continuação da saga, com um desgosto considerável.
Valor narrativo
Quanto ao género literário, a obra de Meyer não tem "problemas de enquadramento": trata-se de um romance - enorme, pelo tamanho - romântico, escrito dentro dos estritos cânones do "best-seller", com uma linguagem simples e directa, mas não descuidada, e dirigida em princípio a um público jovem e adolescente, predominantemente feminino. Isto porque está escrito na primeira pessoa e na perspectiva da jovem protagonista. Talvez o maior mérito de "Crepúsculo" - e o que converteu a saga num êxito entre milhões de raparigas - seja o facto de reflectir bem o complexo discurso interior de uma adolescente, especialmente em questões afectivas. Neste sentido, Meyer, como mulher, revela um bom conhecimento da psique feminina.
Outro factor de sucesso para a autora foi evitar praticamente as descrições das personagens principais. Isto ajuda o leitor jovem, normalmente mais imaginativo que o adulto, a identificar-se com alguma delas e a imaginar os restantes protagonistas segundo as suas preferências. Por outro lado, revela-se perspicaz ao escolher elementos que, em conjunto, constituem um verdadeiro anzol para uma leitora jovem: um amor apaixonado e perigoso, uma personagem sinistra e violenta que é ao mesmo tempo um perfeito cavalheiro e do qual - fora a sua beleza - só se descreve como é a voz e o sorriso (outro acerto da autora), uma adolescente aventureira e curiosa e uma família encantadora e sólida com milhares de segredos.
Além de tudo isto, e para aqueles para quem o enredo amoroso não for suficiente, há longas narrações sobre vampiros e lobisomens muito fantasiadas e directamente extraídas da imaginação da autora, que se confessa mal documentada sobre tradições vampíricas. Nesta mesma linha, encontramos na saga numerosos episódios que relatam, em tom humorístico, algumas curiosidades do que se supõe ser o dia-a-dia de um vampiro; desde a impossibilidade de dormir até às habilidades na água, a capacidade de ler o pensamento, ou o modo de caçar para se alimentar. É ao abordar a lenda dos vampiros e a sua vida quotidiana que a saga "Crepúsculo" se aproxima muito de algumas passagens narrativas da obra de J. K. Rowling.
O amor e o sexo segundo Meyer
Porém, apesar deste pano de fundo de lenda fantástica e de mistério, o prato forte da saga e o que definitivamente prende as leitoras é a história de amor entre Edward e Bella. Há nesta história material de sobra para atrair adolescentes e jovens. A relação entre Edward e Bella começa de modo estranho; ele afasta-se dela assim que a conhece (só depois de ler algumas páginas saberemos que o motivo é o intenso desejo que no vampiro desperta o cheiro do sangue de Bella) e ela sente-se fortemente atraída pelo mistério que tal rejeição encerra.
Quando ela conhecer a natureza de Edward e o aceitar como ele é - não se importa de que ele seja vampiro - ir-se-á consolidar um romance - que dura os três primeiros livros da saga - muito passional e físico: Edward deseja o sangue de Bela e ela deseja o corpo do vampiro.
Chegados a este ponto, convém esclarecer o posicionamento ideológico da autora relativamente à sexualidade, ao amor e à transcendência. Stephenie Meyer tem uma visão transcendente da vida, e no seu romance aborda assuntos como a existência da alma, a maldade intrínseca de algumas acções, a necessidade de sacrifício e de generosidade no amor e a importância da fidelidade aos compromissos.
Além de tudo o mais, Meyer é mórmon praticante e, como tal, defende os bons costumes (no romance não aparece álcool, nem drogas, nem orgias, nem palavras grosseiras) e opõe-se às relações sexuais antes do casamento. Neste sentido, é taxativa a recusa de Edward antes das núpcias.
O vampiro nega-se para proteger a segurança de Bella, mas também, ele próprio o confessa, para não violar a única virtude que possui desde que foi transformado em vampiro: a castidade. Por seu lado, Bella, que ao longo dos três primeiros livros mostrava um intenso desejo de se unir a Edward e se opunha violentamente ao casamento (em parte, devido à experiência negativa do divórcio dos pais), compreende na noite de núpcias que o passo que essa intimidade física supõe precisa de ter uma base com um compromisso estável e forte.
Esta visão das relações sexuais não impede que no romance os dois namorados levem as suas manifestações de paixão até ao limite. O ambiente que rodeia a sua exaltada paixão é de uma extrema sensualidade envolvente, muito erótica e, aqui sim, muito descritiva, se bem que haja sempre o cuidado de não cair na pornografia (proibida pelos mórmons); os noivos beijam-se e acariciam-se em quase todas as páginas; Edward passa as noites abraçado a Bella e a jovem insiste em pôr continuamente à prova a resistência do vampiro.
Relação obsessiva
Por outro lado, a autora concede importância vital ao plano físico e sexual da relação. Isto está particularmente patente no quarto volume - a mais explícita das suas descrições, porque os protagonistas já estão casados - no qual acaba por se valorizar a solidez do casamento pelo nível de satisfação física.
Face a uma cultura como a actual, que bombardeia os jovens com imagens e expressões sexuais muito explícitas, violentas e directas, compreende-se que muitas raparigas se vejam atraídas pelas românticas, eróticas e aparentemente respeitáveis manifestações afectivas de "Crepúsculo", onde, além do mais, é sempre o rapaz que protege a virtude da rapariga.
Um leitor adulto dar-se-á imediatamente conta de que esta visão da afectividade e da sexualidade, vivida sempre no limite, é - como apontava uma crítica publicada no Washington Post - uma "curiosa defesa da abstinência." Curiosa por ser irreal, impossível, forçada e, por vezes, doentia, pois se enquadra num ambiente de perigo físico para Bella e pela contínua confusão entre o apetite sexual e o desejo de sangue.
Para esse leitor, é igualmente claro que a relação entre Edward e Bella, muito fechada neles mesmos e inteiramente obsessiva, é mais doentia que sã; o retrato de Edward - que, além de noivo, amante e amigo de Bella age como pai e super-herói e não tem um único defeito - e por isto mesmo é uma ficção irreal. E que, para construir um casamento e uma família é preciso algo mais do que impulso passional e eflúvios hormonais. A questão é que a saga "Crepúsculo" não é lida por adultos mas por estudantes que contam entre 12 e 18 anos.
Em resumo, apesar do êxito de vendas, a obra é narrativamente frouxa, ideologicamente muito confusa e, embora esteja dirigida a adolescentes, o seu conteúdo é mais apropriado para adultos. Além de que para se ler 2 500 páginas são precisas muitas horas que talvez compense investir numa literatura de mais altos voos.
Ana Sanchéz de la Nieta



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