É o terceiro ano consecutivo em que decresce o número de espectadores de filmes espanhóis: pouco mais de 14 milhões. Tendência que, na realidade, também se verifica no cinema estrangeiro, que continua a perder audiência.
 
goya
 Nestas circunstâncias, Camino, que até agora tem estado numa situação económica delicada (1,3 milhões de euros de bilheteira, insuficientes para cobrir os 7-8 milhões de orçamento, incluindo a promoção), foi escolhido para
 O realizador e produtores de Caminho
receber o generoso apoio da Academia (6 de 7 prémios possíveis, que incluem os três de maior importância: filme, realizador e argumento original) e da televisão estatal. A TVE, encarregada de organizar e emitir a gala, dedicou-lhe especial atenção, antes, durante e depois da cerimónia, talvez pela sua própria implicação económica no filme.
 
A gala serviu para certificar, com selo de Fesser e carimbo do seu mecenas, Jaime Roures - dono da produtora Mediapro e do canal de TV La Sexta -, o que já se percebia ao ver o filme: o profundo desprezo por quem ousa viver o amor, a relação pais - filhos, a dor, a doença e a morte de modo diferente dos responsáveis do filme. Depois de o vender como um retrato conscienciosamente documentado da vida e morte de Alexia González-Barros, mudaram de estratégia após a intervenção da família da rapariga e o filme não ter obtido nenhum prémio no Festival de San Sebastián, onde foi apresentado.
 
Então o filme passou a ser, segundo o realizador, uma homenagem a Alexia, a que se somaram outras experiências reunidas por ele, num esforço para alcançar "dezenas de testemunhos de pessoas apanhadas que conseguiram escapar". Isto, sempre no exercício de uma "honesta procura da verdade", mas em que não houve tempo para falar com a família.
 
Depois de verificar que os resultados de bilheteira que não eram os esperados e que a crítica, dividida, não chegava a valorizar a qualidade do filme, este passou a ser um grito de liberdade criativa e de testemunho de uma perversa instituição católica que teve a desfaçatez de não entrar em polémica com o realizador.
 
Por último, Camino acabou por ser o que sempre foi desde o início: pura e simplesmente um ataque frontal ao Opus Dei usando como aríete emocional a morte de uma rapariguinha de 14 anos. O filme empenha-se tanto neste objectivo que perde o fio condutor do argumento com uma metragem enfadonha e mudanças de estilo - de piroso a terrífico - e converte-se num puzzle narrativamente desconexo.
 
Menos espectadores
 
Quanto ao resto, houve uma ou outra boa notícia nos Goya de baixo perfil, como por exemplo, a do prémio dado a um filme digno, ameno e divertido, de correcta animação 3D, El lince perdido, que se aproxima do milhão de euros recolhidos. El truco del manco, um filme do nobel Santiago Zannou, protagonizado por um músico com sequelas de uma paralisia cerebral, ganhou três prémios. O romeno 4 meses, 3 semanas, 2 dias foi escolhido como melhor filme europeu. Os prémios restantes distribuíram-se entre o inicialmente favorito, Los girasoles ciegos (argumento adaptado), Los crímenes de Oxford (música, produção e montagem), Solo quiero caminar (fotografia), Che: el argentino (actor principal, Benicio del Toro, e direcção artística) e Vicky Cristina Barcelona (actriz secundária, Penélope Cruz).
 
Os espectadores de filmes espanhóis somam pouco mais de 14 milhões, menos um que no ano passado. As entradas rondam os 80 milhões de euros, menos seis que em 2007.
Os filmes espanhóis (incluindo as coproduções com sócios estrangeiros) de 2008 com mais êxito de bilheteira foram Los crímenes de Oxford (8,3 milhões de euros), Mortadelo y Filemón (7,7 milhões), Vicky Cristina Barcelona (7,1 milhões), Che: el argentino (6,7 milhões) e Astérix nos Jogos Olímpicos (5,9 milhões).
 
Contudo, o filme mais visto em Espanha foi Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, com 3,5 milhões de espectadores e 20,7 milhões de euros de bilheteira, seguido por Hancock, com 2,8 e 16,3 milhões, respectivamente. O primeiro filme espanhol na classificação geral (Los crímenes de Oxford) está em 16º lugar.

Alberto Fijo