Assim por exemplo, no princípio desta década o VIH-Sida recebia mais de um terço de todos os fundos provenientes de doações, ainda que só representasse 5 % da mortalidade e da morbilidade nos países de rendimentos médios e baixos. Igualmente, o Sindroma respiratório agudo severo (SRAS) conseguiu atrair enormes recursos apesar de ter causado a morte só a umas centenas de pessoas. Entretanto, outras doenças como a pneumonia e as diarreias, que matam por ano milhões de pessoas e cujos tratamentos têm uma boa relação custo/eficácia, obtiveram muito poucas doações.
O apogeu e queda, diz Shiffman, de um tema de políticas de saúde pode estar menos relacionado com a sua "importância" objectiva do que com a forma de criar um clima de opinião estimulado pelos promotores. De modo especial, os assuntos que podem chamar a atenção são os apoiados por mobilizações - isto é, tomadas de posição sociais e políticas - capazes de chamar a atenção, com bastante força, das elites nacionais e mundiais, e de obter o apoio de instituições que os tornam próprios (OMS, UNICEF, ONUSIDA...).
As doenças, assessoradas pela imagem
Indubitavelmente, por detrás dos anúncios que procuram atrair a atenção das políticas de saúde pode haver motivos legítimos; mas outros poderiam constituir, segundo Shiffman, verdades parciais que ganham, contudo, espaço pelo interesse de conseguir recursos. Por outro lado, a acção das organizações encarregadas das políticas de saúde costuma adoptar critérios destinados a definir um estado de coisas: a OMS, por exemplo, procura estabelecer normas e procedimentos globais acerca do que os governos e os indivíduos devem fazer para melhorar a saúde.
De acordo com a proposta do autor, estas instituições, que mobilizam recursos, implementam programas e fomentam a investigação, contribuem por sua vez para manter uma imagem sobre cada problema. Dessa forma, o movimento contra a poliomielite promoveu a erradicação dessa doença como uma cruzada humanitária que salvaria as crianças do mundo de um flagelo que as afectou durante milénios. A Onusida propõe ser o "representante supremo da acção mundial contra a Sida". Shiffman atribui a Piot a responsabilidade de usar a Onusida para retirar a doença da alçada da mera política de saúde, convertendo-a em algo que afecta de maneira fundamental a segurança do mundo e as perspectivas de desenvolvimento.
Pelo contrário, os temas nos quais a mobilização social não conseguiu destacar a importância da doença, como a desnutrição ou a pneumonia, a atenção dos organismos internacionais continuará a ser a mesma até que se posicione o problema. Onde a mobilização está a caminho de ser institucionalizada, como no caso das doenças tropicais ou da sobrevivência dos neonatos, as perspectivas de ser atendidas melhoram. Onde essa institucionalização está firme como no caso da Sida ou da poliomielite, a vontade política parece garantida.
O que é mais eficaz?
No fim do seu artigo Schiffman assinala diversas maneiras de estar com respeito a adjudicação dos recursos de saúde. Uns pensam que a concorrência por chamar a atenção sobre doenças concretas e por captar recursos não é o mais útil para melhorar a saúde dos pobres. Seria mais racional à hora de adjudicar os recursos ter em conta os dados objectivos sobre a incidência e o peso da doença. Isto exigiria uma abordagem integral centrada no reforço dos sistemas de saúde, como a campanha mundial pelos Objectivos do Milénio.
Outros, pelo contrário, acreditam que as iniciativas viradas para as doenças concretas produzirão melhores resultados e obterão mais apoio político. Em qualquer caso, fica claro que a comunicação estratégica não é uma questão secundária nas políticas de saúde, mas é realmente crucial.
Aceprensa



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