Cardini parte de umas declarações de Ken Follet à revista italiana Panorama onde afirma que "a peste negra de 1347 a 1352 manifestou a todos a verdade: o clero revelou-se completamente impotente. A posterior descoberta do funcionamento da infecção bacteriana permitiu salvar a vida a milhões de pessoas, demonstrando que os preconceitos religiosos anticientíficos da religião não tinham qualquer fundamento".

imagemNão há nada a dizer de Follet como autor de thrillers de sucesso, mas quando os seus argumentos se alicerçam em acontecimentos históricos - especialmente os ligados à Idade Média - é necessário dizer que, sob o ponto de vista histórico, os resultados são decepcionantes", escreve Cardini. "Atendendo às declarações do autor de Um mundo sem fim é mesmo para indignar-se. Follet parece ter descoberto na Idade Média um período imóvel, privado de inovações. Leva a sorrir, mas também a perder a paciência. Desde há décadas que os medievalistas de renome mundial- desde Bloch a Le Goff, Tabacco e muitos outros - vêm a repetir que, pelo contrário, a Idade Média é um período longuíssimo- para alguns ocupa mil anos - e definido de modo comum, que se caracterizou por uma profunda experimentação em todos os campos, desde a tecnologia à politología. Até um místico como Bernardo de Claraval foi um entusiasta das máquinas, moinhos e os pisões com que se trabalhava nos mosteiros cistercienses". Cardini escreve: se o autor "se decide a falar do Medievo não é livre de ignorar a autêntica paixão pela investigação e inovação de personagens como Gilberto de Aurillac, Roger Bacon e tantos outros: clérigos, sacerdotes, religiosos e místicos que não eram sonhadores alquimistas nem hereges.
 
No entanto, a Igreja inventada por Follet no seu último romance é um bando de «arrivistas aproveitados, ladrões, bon-vivants» e violadores. Quando vem a peste, em meados do século XIV, não fazem nada para combatê-la nem para aliviar os sofrimentos das pessoas. Segundo Follett, a Universidade, os hospitais, as enormes obras de misericórdia não são nada. Para ele, a responsabilidade pelo facto de o mecanismo das infecções não ter sido conhecido antes do século XIX deve-se aos preconceitos anticientíficos da religião(!). Nem sequer lhe passa pela cabeça que as explicações sobre a corrupção dos ares ou o desequilíbrio dos humores do corpo fossem, na realidade, a ciência do tempo, a que praticava toda a sociedade - e toda a Igreja também, na medida em que estava inserida na mesm asociedade-".

Finalmente, Cardini refuta alguns dados em que se baseia Follet, tais como: "Não é completamente certo que [a peste] levasse consigo dois terços da população europeia; (...) as vítimas foram-se distribuindo como manchas de leopardo, numa geografía difícil de compreender. Em muitos casos os mortos foram muito superiores às estimativas que dá o autor; noutros, pelo contrário, nem sequer chegou a dar-se o contágio, como sucedeu com a cidade de Milão, que se viu miraculosamente salva". O conflito ciência-Igreja então é falso: "Os médicos desse tempo estavam absolutamente enquadrados por uma amálgama de saberes, em que coexistiam a teologia com a filosofía.

As críticas expressas pelo romancista não têm qualquer credibilidade e falam claramente ou da sua ignorância dos factos, ou do seu anticatolicismo, ou de uma antipática mistura de ambas as coisas", conclui.

Fonte: Avvenire