Um dos promotores da necessidade desta nova posição foi o próprio Bento XVI. Referiu-se a ela por extenso durante uma intervenção não programada no passado 14 de Outubro, em que sugeriu que uma das propostas do Sínodo deveria ir nesse sentido. Os padres sinodais concluíram os seus trabalhos apresentando ao Papa 53 propostas. Ainda que , como é tradicional, essas sugestões se mantenham sob reserva, não resta dúvida de que várias se referirão a este problema, que foi um dos mais presentes durante as discussões. Espera-se que, como é habitual, com essa documentação o Papa escreva nos próximos meses uma exortação apostólica.

Sínodo especial para África

Durante a cerimónia de encerramento do sínodo, no domingo 26 de Outubro, o Papa anunciou que viajará pela primeira vez a África em Março de 2009. Visitará concretamente os Camarões, onde entregará simbolicamente aos bispos do continente o documento de trabalho do próximo sínodo dos bispos sobre África, que decorrerá em Roma em Outubro desse mesmo ano. E visitará também Angola por motivo do 500º aniversário da evangelização do país, ainda a recuperar dos efeitos da guerra civil que - com momentos de maior ou menos intensidade - durou de 1975 até 2002.

O Papa dedicou também uma significativa "recordação especial" aos bispos da China, a quem o regime comunista impediu de viajar a Roma e não puderam, por conseguinte, estar representados no Sínodo. O Papa agradeceu-lhes "o seu amor a Cristo, a sua comunhão com a Igreja universal e a sua fidelidade ao sucessor do apóstolo Pedro". Também se uniu ao chamamento que os patriarcas das igrejas orientais fizeram no fim do Sínodo para que se ponha fim às tragédias que estão a ser praticadas no Iraque e algumas regiões da Índia, "onde os cristãos são vítimas da intolerância e cruéis violências, são assassinados, ameaçados e obrigados a abandonar as suas casas e vaguear em busca de refúgio".

Renovar a exegese bíblica

Sob o ponto de vista informativo, este Sínodo foi um dos mais serenos. Não houve o bombardeamento de notícias fragmentadas, e com frequência contraditórias, que era mais ou menos habitual nas outras reuniões sinodais. Talvez o lema - "A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja" - não se prestasse tanto à polémica jornalística.

Isso não quer dizer, contudo, que não houvesse questões candentes sobre a mesa. Uma delas foi exactamente tudo o que está relacionado com a exegese bíblica. O exemplo que apresentou o Papa é eloquente: a tendência geral da exegese na Alemanha, disse, nega "que o Senhor tenha instituído a Santa Eucaristia e disse que o corpo de Jesus permaneceu no túmulo. A Ressurreição não seria um facto histórico, mas sim uma visão teológica".

Explicando aos fiéis, durante o Angelus de 26 de Outubro, em que tinha consistido o Sínodo, o Papa disse que um aspecto sobre o qual ele tinha reflectido muito era a relação entre "a Palavra e as palavras, quer dizer, entre o Verbo divino e as Escrituras que o exprimem". Assinalou que a constituição Dei Verbum, do Vaticano II, ensina que uma boa exegese bíblica exige tanto o método histórico-crítico como o teológico, porque "a Sagrada Escritura é Palavra de Deus em palavras humanas. Isto comporta que todo o texto deve ser lido e interpretado tendo presentes a unidade de toda a Escritura, a tradição viva da Igreja e a luz da fé". A Bíblia é uma grande obra literária mas não pode ser despojada do elemento divino. "Deve ser lida com o Espírito com que foi composta".

O Papa observou durante a sua intervenção no Sínodo que enquanto que a actual exegese académica "trabalha a um nível altíssimo e nos ajuda realmente", não se pode dizer o mesmo da dimensão teológica, desse ter em conta a dimensão divina. Uma consequência de tal esquecimento é que "a Bíblia fica como algo do passado, fala só do passado". Acaba por se usar uma interpretação, uma "hermenêutica secularizada, positivista, cuja explicação fundamental é a convicção de que o divino não aparece na história humana. Segundo esta hermenêutica, quando parece que há um elemento divino, deve explicar-se donde vem essa impressão e reduzir todo o elemento humano. Por conseguinte, propõem-se interpretações que negam a historicidade dos elementos divinos".


Diego Contreras