Martin McDonagh (londrino, 38 anos) ganhou em 2004 o Óscar de curta-metragem com Six Shooter, uma pequena história em registo de comédia negra e sangrenta, protagonizada pelo actor irlandês Brendan Glesson. A primeira longa de McDonagh segue a mesma linha material e formal. Conta com uma dupla, o mesmo B. Glesson e Colin Farrell, também irlandês, que desempenham com mestria o papel de dois assassinos contratados. Depois de um "trabalho" complicado, são enviados pelo chefe a Bruges. E os dois "magarefes" têm de portar-se como turistas em Bruges, naquela cidade medieval das mais bem conservadas do mundo, a "Veneza do Norte".

brugesMcDonagh, também autor do argumento, é um bom escritor e o filme tem diálogos bem conseguidos, de canalhas e desenganados, porque despoja de todo o glamour a vida dos dois assassinos que partilham una peculiar amizade, enquanto vivem na corda bamba. Chama a atenção a sólida estrutura da história, com um enredo principal bem traçado que sabe conduzir os conflitos até um final vigoroso, administrando com perícia os recursos proporcionados pelas personalidades destes assassinos.
Podia censurar-se o filme por resultar pequeno, mas não parece que melhorasse com mais personagens, mais locais e mais sub-enredos. O que parece claro é que sobram uns 15 minutos e que há diálogos e ambientes com algumas grosserias, que tornam a fita episodicamente incómoda.
A fotografia de Eigil Bryld é muito acertada e recorda a da sua autoria no filme sueco Före Stormen. Bryld evita o "pack de turismo urbano" habitual em grande parte do cinema comercial norte-americano, que aproveita a mínima oportunidade para montar a câmara num helicóptero, num carro ou numa dolly. É uma atitude de mérito, tendo em conta a atracção da cidade e de alguns lugares deliciosos, onde se têm rodado cenas, como por exemplo, o museu Groeninge.
A boa música tem a assinatura de um grande, Carter Burwell.


Alberto Fijo

 


*(V: cenas de violência; S: sensualidade; D: diálogos grosseiros)