“Quantas vezes já lemos, durante as recentes discussões sobre a Lei de Embriologia e Fecundação Humana, que a investigação com embriões híbridos de homem e de animal é vital para conseguirmos curar o Alzheimer ou o Parkinson?” Segundo o Primeiro Ministro Gordon Brown, a lei permitirá encontrar terapias que “podem salvar a vida de milhares de pessoas, milhões, ao fim de algum tempo”.
“Deslumbrado pelas promessas, o público inclina-se perante a ciência. A Autoridade da Embriologia e Fecundação Humana permite tudo: não rejeitou nenhum projecto de investigação com embriões. Os cientistas partidários desses projectos encontram submissos porta-vozes em políticos e jornalistas seduzidos pelas promessas. Como se atreveria alguém a opor-se a essas curas milagrosas? Nos esforços de alguns defensores do projecto politicamente mais motivados pudemos verificar uma confusão de temas e um clássico jogo de mãos”.
Células adornadas com méritos de outras
Antes de mais, explica Scolding, foram usados os progressos em terapias com células estaminais adultas, para ilustrar e justificar as muito hipotéticas possibilidades terapêuticas das células estaminais embrionárias. Exemplos disto são as declarações de Gordon Brown: “As células estaminais adultas já estão a ser usadas para tratar doenças como a leucemia, a imunodeficiência grave combinada ou doenças coronárias, e os cientistas estão quase a conseguir as descobertas que permitirão usar as células estaminais embrionárias para tratar uma variedade muito maior de doenças”.
“Deslumbrado pelas promessas, o público inclina-se perante a ciência. A Autoridade da Embriologia e Fecundação Humana permite tudo: não rejeitou nenhum projecto de investigação com embriões. Os cientistas partidários desses projectos encontram submissos porta-vozes em políticos e jornalistas seduzidos pelas promessas. Como se atreveria alguém a opor-se a essas curas milagrosas? Nos esforços de alguns defensores do projecto politicamente mais motivados pudemos verificar uma confusão de temas e um clássico jogo de mãos”.
Células adornadas com méritos de outras
Antes de mais, explica Scolding, foram usados os progressos em terapias com células estaminais adultas, para ilustrar e justificar as muito hipotéticas possibilidades terapêuticas das células estaminais embrionárias. Exemplos disto são as declarações de Gordon Brown: “As células estaminais adultas já estão a ser usadas para tratar doenças como a leucemia, a imunodeficiência grave combinada ou doenças coronárias, e os cientistas estão quase a conseguir as descobertas que permitirão usar as células estaminais embrionárias para tratar uma variedade muito maior de doenças”.
Scolding dá outro exemplo: “ No Times do Sábado passado (17 de Maio), um suplemento de 12 páginas (patrocinado pela Wellcome Trust e publicado, curiosamente, dois dias antes do debate no Parlamento) não se cansava de tecer os louvores das terapias e da investigação com células estaminais, através de comovedoras histórias de curas e de impressionantes informações sobre progressos científicos. Mas uma coisa não se mencionava: que todos os casos de tratamentos a doentes eram com células estaminais adultas. E que todas as informações sobre células estaminais embrionárias eram de experiências ou de ensaios em animais, ou de estudos que especulavam sobre o potencial futuro de tais células. Não se tratou um único doente, nem sequer em ensaios, com células estaminais embrionárias: seria demasiado perigoso”.
Isso não é de admirar, acrescenta Scolding, perante os problemas que as células estaminais embrionárias apresentam: tendência a provocar tumores, instabilidade e anomalias genéticas e cromossómicas, perigo de rejeição e de infecções no caso das células do doador. Por isso, há três meses, o New England Journal of Medicine (28-2-08), pertinaz defensor da clonagem e da investigação com células estaminais embrionárias, lamentava-se: “Como era de prever, talvez as dificuldades técnicas e as complicações éticas desta opção (células estaminais de embriões clonados) a tornassem impraticável desde o princípio”.
Pelo contrário, lembra Scolding, as células estaminais adultas podem obter-se com maior facilidade no organismo do próprio doente. Daí o êxito de ensaios clínicos com doentes possuidores de doenças tão variadas como enfartes, diabetes, isquémia dos membros, incontinência de stress e retinopatias.
Células estaminais adultas: nascidas para regenerar
Além disso, as vantagens das células estaminais obedecem a uma razão biológica profunda. “A nossa ideia da medicina regenerativa mudou de forma notável nos últimos anos. As propriedades básicas das células estaminais embrionárias (capacidade de proliferar ilimitadamente e de se diferenciarem em células de qualquer tipo) só se consideravam claramente vantajosas quando entendíamos a terapia celular como uma simples substituição de células perdidas. De facto, esta ideia simplista é aplicável em muito poucas situações clínicas. A reparação de tecidos é infinitamente mais complexa. Implantar neurónios derivados de células estaminais, por exemplo, e esperar que curem Alzheimer é como meter umas quantas engrenagens, rodas e molas dentro de um relógio avariado e esperar que ele volte a funcionar”.
Pois bem, “o uso de células estaminais adultas, presentes em muitos órgãos especializados, se não em todos, tem evoluído para a regeneração: é essa a função que têm (no organismo), e cumprem-na de muitas formas, mas isto é pouco relevante para a nova lei”.
Segue-se a manipulação. “O debate transformou-se, de modo falaz, num referendo sobre a investigação com células estaminais embrionárias. O que se propõe é, na realidade, “apenas” autorizar que se criem várias espécies de embriões mistos humanos e de animal como novas fontes possíveis de células estaminais. Mas todos os argumentos invocados para justificar as experiências com cíbridos (embriões humanos que contêm uma pequena quantidade de material genético animal, por se terem formado substituindo o núcleo de um óvulo animal pelo de uma célula humana) estão baseados na falsa ideia de que são vitais para desenvolver terapias contra temidas doenças, a partir de células estaminais embrionárias”.
Opção estrambólica
Isso é pura tergiversação, diz Scolding, que cita um defensor da investigação com embriões, Roger Highfield, encarregado da secção de Ciência do Daily Telegraph. Os estudiosos de Biologia Celular que compreendem a complexidade dos cíbridos, adverte Highfield, duvidam seriamente que esses embriões possam sequer dar alguma informação remotamente útil sobre doenças humanas. E James Sherley, do programa de Cancro e Biologia Regenerativa de Boston, disse: “Teríamos que desprezar grossos volumes de Biologia Molecular e Celular Fundamental para justificar a investigação com cíbridos. Não precisamos de nem mais uma experiência para sabermos, com certeza, que a clonagem humano-animal não pode proporcionar modelos válidos para a clonagem humana”.
E Scolding prossegue: “Suspeito que esta falsa equação – a derrota do projecto seria uma derrota para toda a investigação com embriões – foi o toque a rebate que mobilizou o establishment científico do país para apoiar o projecto. Na verdade, poucos cientistas sérios que trabalham com células embrionárias falarão a favor dos cíbridos pela utilidade intrínseca destes embriões para a investigação terapêutica; a maioria, obviamente, falará a favor da investigação embrionária em geral. (Embora, inclusivamente entre estes, uma parte defenda o projecto-lei mais pelo princípio de que não se devem pôr limites ao trabalho dos cientistas do que pelas células embrionárias em si mesmas).
Por fim, Scolding recorda que desde o ano passado existe uma alternativa ao uso de embriões: as células pluripotentes induzidas, que se obtêm pela reprogramação genética das células diferenciadas do organismo. Esta técnica produz células “praticamente idênticas às embrionárias, e é muitíssimo mais fácil que a clonagem humana (para já não falar da clonagem de cíbridos)”. Cientistas de todo o mundo estão a voltar-se para a reprogramação. Até mesmo investigadores britânicos que trabalham com células estaminais dizem que a reprogramação anuncia o fim da experimentação com embriões humanos. Em mais nenhum lugar desperta verdadeiro interesse a opção, bastante estrambólica, de produzir cíbridos, e menos ainda híbridos”.



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