A História também concedeu esse título a Adenauer e a De Gasperi, que, juntamente com ele, deram início ao processo de integração das Comunidades Europeias. Foi, no entanto, o ministro do Estrangeiro francês que propôs o modo concreto de o realizar, na sua Declaração de 9 de Maio de 1950. Nessa data celebra-se agora o “Dia da Europa”: mais uma prova da centralidade de Schuman na história da Europa unida.
 
Schuman nasceu no Luxemburgo em1886, embora a sua família fosse oriunda da Lorena, então território do Reich alemão. Estudou Direito em Munique, Bona e Estrasburgo, e exerceu como advogado em Metz. Foi cidadão alemão e oficial do seu exército, até que em 1918 a França recuperou a Lorena ao terminar a Primeira Guerra Mundial. Schuman definiu-se a si próprio como um “homem de fronteira”, qualidade comum com Alcide de Gasperi e Adenauer.

Ocupou cargos públicos desde 1919 e foi vítima de acusações pela sua mudança de nacionalidade e, mais tarde, pela sua colaboração com o governo de Vichy. Depois de ilibado destas acusações, começou novamente a sua carreira política que o levaria a Ministro das Finanças (1946-47), Chefe de Governo (1947) e, finalmente, Ministro dos Negócios Estrangeiros (1948-1952).

Do isolamento à solidariedade

As nações, escreveu Schuman anos depois do desempenho da sua tarefa como ministro, “são incapazes de dominar pelos seus próprios meios os enormes problemas que se lhes apresentam”. Era já impossível que cada uma se bastasse a si própria e a fragmentação da Europa era, na sua opinião, um “anacronismo absurdo”. “Depois de duas guerras mundiais, acabámos reconhecendo que a melhor garantia para a nação já não reside no seu esplêndido isolamento, nem na sua própria força, seja qual for o seu poder, mas na solidariedade das nações que estejam guiadas por um mesmo espírito e que aceitem as tarefas comuns num interesse comum”.

Schuman apresentou-se com este diagnóstico perante os jornalistas em 9 de Maio de 1950, acompanhado por Jean Monnet. Ofereceu então às nações europeias uma receita ao mesmo tempo ambiciosa e viável: “A paz mundial não pode ser salvaguardada sem esforços criadores equiparáveis aos perigos que a ameaçam”. “A Europa  explica depois de a assinalar como a solução para o problema da paz não se fará de uma só vez: far-se-á graças a realizações concretas, que criem primeiro uma solidariedade de facto (...). Exige que a oposição secular entre a França e a Alemanha seja superada”. E, para isso, o Governo francês propunha “actuar de um modo imediato sobre um ponto limitado, mas decisivo (...): a colocação em comum das produções do carvão e do aço”, indústrias estratégicas, objecto de permanentes controvérsias entre ambos os países.

A guerra entre a Alemanha e a França tornar-se-ia desta maneira “não só impensável, mas materialmente impossível”. O Tratado da CECA (Paris,1951) e os posteriores Tratados da Euratom e da CEE, colocariam as bases jurídicas de uma colaboração estável submetida a umas normas comuns, aplicadas por um Tribunal de Justiça imparcial gerida por uma Alta Autoridade Comum, supranacional, que, mais adiante, receberia o nome de Comissão. A partir destes avanços surgiria assim o mais importante para Schuman: “A ideia da Europa, o espírito de solidariedade comunitário”. A unidade económica iria exigir a unidade política.

Os obstáculos não foram pequenos, mas Schuman e a equipa negociadora de Jean Monnet enfrentaram-nos com determinação e flexibilidade. Segundo todos os testemunhos, a principal alavanca para remover as barreiras de todo o tipo foi a amizade cordial que Schuman cultivou com Adenauer e De Gasperi, e o seu espírito conciliador. Isto favoreceu que as delegações negociadoras terminassem o projecto do Tratado num tempo recorde: menos de um ano.

Um político cristão exemplar

Schuman impulsionou também a frustrada Comunidade Europeia de Defesa: nem tudo foram êxitos. Depois de abandonar os cargos no Governo francês, dedicou-se à promoção do projecto europeu como Presidente do Movimento Europeu, e, mais tarde, da Assembleia Parlamentar Europeia. Em 1959 retirou-se da vida pública sofrendo de esclerose múltipla com frequentes perdas de consciência e de memória e concentrou-se na revisão das suas anotações e escritos, com a intenção de os publicar. Assim nasceu Pela Europa (ver Aceprensa 8/07), um livro que segundo ele próprio escreveu não eram umas simples memórias: possuía “o valor de uma mensagem”. Robert Schuman faleceu a 4 de Setembro de 1963, atendido espiritualmente pelo bispo de Metz.

A sua intensa vida cristã e o seu serviço ao seu país e à reconciliação europeia levaram a Igreja a iniciar o seu processo de beatificação. Nascido numa família cristã, Schuman sempre deu mostras de inquietação religiosa. Na juventude pôs a hipótese do sacerdócio, formou parte de associações religiosas e começou a cultivar uma sólida piedade apoiada na Escritura e na Eucaristia. Nunca contraiu matrimónio.

Sobressai, sobretudo, pelo seu testemunho luminoso nas tarefas públicas. Jean Monnet deixou escrito este retrato: foi “um homem sem desejos pessoais, sem ambições, de uma sinceridade total e de uma imensa humildade intelectual, que unicamente procurava servir onde e quando fosse necessário. (...) Porém, sobretudo ficará na memória como o protótipo do verdadeiro democrata, imaginativo e criativo, combativo dentro da suavidade formal, sempre respeitador do homem e fiel a uma vocação íntima que dava sentido à sua vida” (Jean Monnet, Memórias).

Em Março de 2004 encerrada a fase diocesana André Lacrampe, arcebispo de Besançon, afirmou que o Papa João Paulo II considerava próxima uma decisão sobre o seu acesso aos altares. A sua figura tornava-se especialmente significativa no momento do debate constitucional sobre as raízes cristãs da Europa. Com a sua vida pessoal e as suas realizações políticas, pôs de manifesto uma ideia central do seu pensamento que dificilmente perderá actualidade: “A democracia deve a sua existência ao cristianismo”.