Via livre para os embriões híbridos
No primeiro dos debates era discutida a possibilidade de aprovar por lei a investigação científica com embriões híbridos, coisa que, há alguns meses, já se pode fazer com autorização administrativa. Depois de três horas de intensa discussão, o Parlamento concordou, por 336 votos a favor e 176 contra. Mais consensual foi a votação sobre uma das emendas que procurava proibir unicamente a hibridação pura, ou seja a criação de embriões metade homem e metade animal, mas permitiria formar embriões inserindo o núcleo de uma célula humana num óvulo de animal. Essa limitação foi recusada por 286 votos contra 223.
Tanto o primeiro ministro trabalhista, Gordon Brown, como o líder da oposição conservadora, David Cameron, defenderam a técnica. Em contrapartida, entre os ministros que votaram a favor da proibição contam-se três membros católicos do Partido Trabalhista: Ruth Kelly, Secretária dos Transportes; Dês Browne, Secretário da Defesa; Paul Murphy, Secretário de Gales, votaram a favor da proibição de qualquer forma de hibridação.
De acordo com o deputado conservador, Edward Leigh ao Times, a decisão implica a ultrapassagem de uma «última fronteira», desconhecendo os perigos da investigação que se acabava de permitir. Leigh afirmou que se estava a dar falsas esperanças sobre a cura de doenças, como Parkinson, Alzheimer ou o cancro utilizando este tipo de técnicas. «Em muitos aspectos - conclui Leigh - somos como crianças a brincar com minas terrestres, ingénuos, ignorantes, sem qualquer noção dos perigos da tecnologia que se está a utilizar».
A Ministra da Saúde, Dawn Primarolo, defendeu, na sua intervenção que não se devia dar importância às emendas, pois «uma vez que se começa esse caminho, carece de lógica opor-se a determinadas combinações». Primarolo disse que a razão pela qual se torna necessário a utilização deste tipo de embriões híbridos é a escassez de óvulos humanos e concordou que o projecto de lei não era uma promessa de que se poderiam ser encontrados tratamentos eficazes para as doenças: «presentemente é apenas um desejo», afirmou.
Prazos para provocar um aborto
O segundo tema em discussão era sobre os chamados «bebés-medicamento»; a selecção de embriões gerados in vitro para se tornarem em dadores compatíveis de tecidos para irmãos que sofram de doenças provocadas por deformações genéticas. O Parlamento britânico deu, também luz verde a estas práticas.
Também foi aprovado, sem restrições, o recurso à fecundação artificial «a pedido» de apenas uma mulher. A actual versão da lei não proíbe, mas exige que sejam estudados caso a caso, de modo a encontrar motivo para recusar o pedido, justificando que poderia ser prejudicial para o filho que nasce ser privado de um pai. A supressão deste requisito era uma «exigência», sobretudo, das organizações de lésbicas.
O último ponto da lei que foi objecto de análise feita pelos Comuns foi a possibilidade de reduzir o actual período para provocar o aborto de 24 para 22 semanas (salvo quando haja uma lesão grave e permanente para a saúde física ou psíquica da mãe, ou risco de malformação do feto). Um total de 233 deputados votou a favor, entre eles o líder conservador, David Cameron e vários ministros do governo; houve 304 votos contra, entre eles, o do primeiro-ministro Gordon Brown e do líder liberal-democrata, Nick Clegg.
A questão do aborto no Reino Unido não era debatida no Parlamento há décadas. Em 1990 foi acordado baixar para 24 semanas o prazo de 28 estabelecido na lei do aborto de 1967. O progresso da medicina que permite a sobrevivência do feto fora do útero a partir da 22ª semana, levou um grupo de parlamentares a pedir uma nova redução.
O projecto-lei de Embriologia não está definitivamente aprovado. A Câmara dos Comuns tem, ainda, que efectuar mais duas sessões de debate em sede de comissão que serão em princípios de Junho e, de seguida, haverá a oportunidade de propor emendas antes da terceira leitura. O Grupo Parlamentar Pró Vida, em que há deputados de todos os partidos, anunciou que continuará a tentar modificar o projecto nos assuntos que ainda restam.



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