O escritor nova-iorquino Mario Puzo (1920-1999) é o autor de O Padrinho e deste romance "histórico" Os Bórgia, editado postumamente. Nesta obra usa o mesmo esquema da saga dos Corleone. Por casualidade ou não, o argumento de Piero Bodrato, (que figura nos créditos do filme como guionista original) tem o mesmo estilo «Corleonês». Há um pai (Alexandre VI) que tem por objectivo absoluto proteger a sua própria família. E também tem filhos, sobretudo César, dispostos a tudo para manter a segurança e o poder do clã familiar. Uma irmã, a frágil Lucrécia, e João, um irmão-problema, que não merece viver. E sobretudo, há famílias inimigas, como os Orsini, que disputam entre si o domínio de Roma. Se substituirmos os nomes dos protagonistas, temos a mesma sinopse da obra-prima de Francis Ford Coppola, O Padrinho.borgia

Mas O Padrinho é um filme imortal e Os Bórgia, não. Porque a história é traída por uma abordagem demasiado quadriculada e simplista, tanto em relação aos seres humanos, como à Igreja Católica, como a toda a cristandade. Um simples exemplo: basta uma vista de olhos pelo curriculum de Alexandre VI, Rodrigo Bórgia (Borja, porque era espanhol), para se constatar que não tem ponto de semelhança com o personagem protagonizado por Lluis Homar: uma personagem infantilizada, instável, sem conteúdo e sem vislumbres de uma cultura séria e intelectual. O papa que lhe sucede, Júlio II, é apresentado por Eusebio Poncela com uma personalidade obscura, hipócrita e maquiavélica, com mais semelhanças com a personagem que Rex Harrison encarna em A Agonia e o Êxtase, de Carol Reed.

Há falta de nuances, mas sobretudo o filme transmite uma imagem muito parcial da Igreja renascentista, sem contrapontos da cobiça e da falta de princípios dos Bórgia. Não há uma personagem que se possa apresentar como referência da santidade dos séculos XV e XV que é sempre a coroa da Igreja em todos os tempos.

Sem dúvida que o elenco é bom e que bons são vários aspectos técnicos. Contudo as cenas de acção apresentam deficiências e em todo o filme há um excesso de exibicionismo erótico.
A personagem de Lucrecia Borgia (María Valverde) tem uma presença amável e é a única que revela rasgos de sincera humanidade.
Em suma, um argumento demasiado plano e com excessivos lugares-comuns numa história tão apaixonante: uma péssima lição para os estudantes que hoje ficam com uma noção ridícula deste período tão fascinante da história.

Juan Orellana

*(V: cenas de violência; X: sexo; S: sensualidade; D: diálogos grosseiros)