Como aqueles dissidentes checos e eslovacos, os assinantes da Carta 08 apoiam-se nos compromissos a favor dos direitos humanos que o regime chinês subscreveu em teoria. E a seguir mostram a incoerência do governo comunista, que os proclama mas não os cumpre sistematicamente. "A China tem muitas leis, mas não o império da lei; tem constituição, mas não governo constitucional". As consequências são uma corrupção endémica, clientelismo, aumento das desigualdades sociais, crescente animosidade do povo contra as autoridades. Não há vias para apresentar as queixas, que amiúde se silenciam com prisão e até tortura.
O documento enumera a seguir seis princípios nos quais se baseiam as suas exigências: liberdade, direitos humanos, igualdade, republicanismo (equilíbrio de interesses e poderes), democracia e governo constitucional.
A seguir, são apresentadas 19 propostas de reforma política para assegurar a protecção desses princípios. A primeira é mudar a Constituição, para eliminar tudo o que nela contradiz o respeito dos direitos fundamentais. Seguem-se a separação dos poderes, a eleição por sufrágio universal dos membros das assembleias legislativas e dos governos a todos os níveis (local, provincial, nacional), a independência dos juízes e o controlo público dos funcionários. Reclamam-se expressamente as liberdades de associação, de reunião e de expressão, assim como a liberdade religiosa.
O texto insiste também em reduzir as desigualdades entre campo e cidade, um dos principais motivos de conflitos na China; em garantir a propriedade privada; a protecção do ambiente; o estabelecimento de uma boa Segurança Social.
A Carta 08 sublinha que a procura da liberdade plena é cada vez maior na China, e a falta de resposta por parte das autoridades gera o perigo de um "conflito violento de proporções desastrosas". A elite governativa não poderá manter o seu poder autoritário indefinidamente: "A decadência do sistema actual atingiu o grau em que a mudança já não é uma questão de opção".
Aceprensa



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