"Nada disto seria possível sem a determinação de um grupo de europeus, profundamente marcados por duas guerras fratricidas, mas com o olhar firmemente dirigido para o futuro, homens capazes de superar os marcos nacionais para oferecer um projecto de integração política e económica à Europa".
Com as suas próprias vidas
Se ser amigos consiste em compreender-se e em estimar-se, pode dizer-se que os três principais fundadores da Europa foram amigos.
Por que se compreenderam e se estimaram? Talvez porque tinham atravessado circunstâncias parecidas nas suas vidas e porque reagiram perante elas de modo semelhante. Este fenómeno não é novo na história. Com muita frequência grandes homens passaram por grandes dificuldades e reagiram perante elas com heroísmo. Não são só as circunstâncias extraordinárias que atravessam mas também a reacção perante elas o que os faz moldar a história.
Robert Schuman, Alcide De Gasperi e Konrad Adenauer foram homens de fronteiras e ao mesmo tempo sem fronteiras; feitos prisioneiros já na sua juventude, reagiram sem rancor; perante as dificuldades opuseram o bom humor e o optimismo; os três souberam aliar no seu carácter a firmeza à bondade, substituir o ódio pela confiança; os três foram homens de fé, fé que herdaram mas também souberam cultivar. Nas suas próprias vidas, e não só nas suas palavras, a Europa lança as suas raízes. Viveram primeiro em si mesmos o que fomentaram depois nos seus países.
Homens sem fronteiras
Foto: Robert Schuman
Robert Schuman nasceu em Clausen (Luxemburgo) em 1886, de nacionalidade alemã pelo pai, que procede da Lorena, região anexada à Alemanha em 1871, depois da guerra franco-prussiana. Começa Direito em Bona, continua em Munique e em Berlim e termina em 1908 em Estrasburgo. Em 1912 abre um escritório de advogados em Metz, então cidade alemã na região da Lorena. Depois da derrota alemã na Primeira Guerra Mundial, a Alsácia e Lorena voltarão a França. Robert Schuman é eleito deputado, um dos primeiros deputados franceses das regiões da Alsácia e da Lorena quando estas regiões entram a fazer parte do Parlamento francês pela primeira vez.
Schuman sempre se sentiu francês de coração, mas, como se deduz dos seus anos de juventude, embebeu-se da língua e cultura alemãs, cujas riquezas descobriu e assimilou rapidamente.
Alcide De Gasperi nasce austríaco em 1881 em Pieve Tesino, província de Trento, que então fazia parte do Império Austro-Húngaro. O pai é chefe de um posto de polícia, funcionário do Império. Na zona fala-se italiano. De Gasperi estuda filosofia na Universidade de Viena e entra em contacto com as minorias do intrincado império: polacos, húngaros, eslovenos, checos. Em Viena aprenderá e lançará raízes o respeito por culturas diferentes da sua.
Rapidamente milita pela língua italiana. Durante a Primeira Guerra Mundial será como o arauto da vontade do Trentino de ser italiano. No fim da guerra quando, com efeito, a região se une a Itália, De Gasperi é aclamado como um herói.
Konrad Adenauer nasceu em Colónia em 1876. Viveu em Colónia e em Bona. Morreu em Rhöndorf, todas elas cidades situadas na região do Reno, eixo geográfico europeu, grande passagem natural que percorre, alimenta e comunica a Europa desde a antiguidade.
Sem rancor
Schuman, Adenauer e De Gasperi sentiram na carne a perseguição, a prisão e o desprezo. É precisamente nessas circunstâncias e talvez por causa delas, que geraram ideias de paz, de fraternidade e de unidade entre os homens e entre os povos.
Robert Schuman foi preso primeira vez em 1940 depois da invasão alemã de França. O Governo de Pétain tinha-lhe oferecido um ministério mas ele não o aceitou. Joseph Bürkel, dirigente regional nazi da Lorena, interroga-o com brutalidade, ainda que acabe por lhe professar uma certa amizade, nascida da admiração perante a reacção de optimismo e a ausência de ódio de Schuman durante o seu encarceramento. Ao fim de algum tempo de reclusão comunicaram-lhe que estava autorizado a ler uma só obra de literatura; respondeu que escolhia a história dos papas, em 24 volumes, se porventura o tempo fosse longo.
Bürkel propõe-lhe a liberdade se lhe der a sua palavra de não passar a zona livre. Schuman assegura-lhe que fará todo o possível por lá chegar ali. Perante o seu não, concede-lhe residência na aldeia de Neusdats under Weinstrasse. Consegue escapar-se e chega a Lyon dia 15 de Agosto de 1942, justamente ao começar a missa solene.
Começa um longo périplo de clandestinidade que durará três anos, de 1942 a 1945. Durante este período de fugas contínuas, Schuman trabalhará sem descanso em favor da futura unidade franco-alemã, escrevendo e reflectindo sobre ela. Três anos de pobreza extrema e um risco permanente de ser descoberto e assassinado. Desta situação não guardará rancor algum, pelo contrário, estenderá os braços à Alemanha, convencido de que só a unidade entre os povos conseguirá que não se repita a tragédia que viveu na sua própria carne.
Em tempos de perseguição
Foto: Alcide De Gasperi
De Gasperi foi preso pela primeira vez em Novembro de 1904, por ocasião de um confronto em Innsbruck entre estudantes alemães e italianos. O jovem De Gasperi aproveita o permanência na prisão durante um mês para animar os seus companheiros.
Durante a Primeira Guerra Mundial, ainda que não em situação prisional, é considerado como refugiado e é-lhe proibido voltar à sua região, o Trentino. É precisamente nessa época que já evoca a fraternidade entre os povos como premissa da Europa unida.
Durante o regime fascista instaurado em Itália em 1921 Mussolini acusa De Gasperi de "austrianismo". Em 1927 foi metido na prisão Regina Coeli. Ao conhecer a condenação de quatro anos de cadeia, escreve a frase bíblica "Quem semeia com lágrimas recolherá com alegria", e à sua mulher: "Sou uma semente na mão toda-poderosa, uma pequena pedra com a qual se constrói o edifício... bendigo a mão de Deus, que arrancando-me à vida dissipada dos assuntos públicos, me obriga a meditar sobre a vida interior". Palavras semelhantes às de Robert Schuman no seu cativeiro em 1941: "Fui demasiado negligente nesse ponto de vista (a oração e a vida interior) Deus remediou-o". A pena de De Gasperi será comutada por Mussolini graças à intervenção de Mons. Endrici durante uma visita do Rei e de Mussolini a Trento.
Konrad Adenauer conhece a cela pela primeira vez sendo jovem Presidente da Câmara Municipal de Colónia em 1933. Os nazis declaram-no "indigno de confiança", tiram-no do seu posto, confiscam a sua residência, substituem-no por um nazi e declaram-no "inimigo do povo". Em 1944, em plena Guerra Mundial, os nazis detêm-no de novo depois de um atentado contra Hitler.
Depois da vitória aliada na Segunda Guerra Mundial, Adenauer é nomeado de novo Presidente da Câmara de Colónia. No entanto, não se acabaram com isso as perseguições. A administração inglesa da zona destituiu-o como "presidente indigno" Em Londres governam então os trabalhistas, mais próximos aos social-democratas alemães que aos democratas-cristãos, o partido de Adenauer.
Adenauer reagirá sempre com um optimismo sem falha: "Diminuídos, mas não aniquilados", será o seu slogan. Aprenderá do desprezo a necessidade do apreço entre as pessoas e os povos. A partir de 1949 e até 1963, durante a chamada "era Adenauer", na qual será chanceler da Alemanha, poderá trabalhar efectivamente em favor da paz e da unidade entre os povos da Europa. As suas ideias de paz e de colaboração tinham sido geradas em tempos de perseguição.
Traços de carácter
Foto: Adenauer
A Robert Schuman não lhe pouparam insultos de mau gosto. O seu nariz comprido e a careca são objecto contínuo de caricaturas. As críticas foram especialmente duras durante os anos das tensões internacionais entre os blocos pró-soviético e pró-ocidental, reflectidas em França nas lutas entre os partidos. Face ao ódio do ambiente, Schuman reage com paz e bom humor. Numa ocasião, sendo ministro viajando de comboio e sem escolta, responde a um revisor incrédulo sobre a sua identidade, tirando o chapéu: "Mas nunca viu este crânio nos jornais?".
O mesmo Schuman dirá também durante a época em que é ministro das Finanças: "Alguns perdem a cabeça quando uma escolta de motociclistas abre caminho ao seu carro, por isso, eu prefiro, sempre que seja possível, ir a pé". E como detalhes de sobriedade contam que se preocupava que ficassem apagadas as luzes quando terminava uma reunião, utilizava os formulários usados como papel de rascunho e apontava os seus gastos pessoais.
Numa ocasião, ainda como ministro das Finanças, um jornalista reconhece-o a trabalhar num compartimento do comboio abarrotado de gente e pergunta-lhe por que não reserva um compartimento só para ele, Schuman responde-lhe que sabe muito bem quanto custa e que teria de ser pago pelas Finanças Públicas.
Durante uma reunião política um dos assistentes critica um ministro comunista. Schuman corta rapidamente dizendo que não tolerará que se critique um dos seus colegas diante dele: "Para mim, a solidariedade é sagrada".
Conta-se que De Gasperi sabia rectificar quando se enganava. Depois de uma viva discussão na União Académica Católica Italiana na qual se incomodou e saiu batendo com a porta, volta à sala e diz que tem pena ter colaborado para a divisão com a sua atitude orgulhosa e pede publicamente perdão. Contam também de Schuman que, depois de uma reunião em 1940 na qual também tinha batido com a porta, voltou ao fim de um quarto de hora, pediu desculpa e rogou aos que tinham assistido ao episódio que, para lhe perdoarem, aceitassem o seu convite para jantar.
O alicerce para a construção da Europa
Em 20 de Maio de 1950 Robert Schuman faz aprovar pelo Conselho de Ministros francês o plano que tinha sido concebido por Jean Monnet para unir a Europa. Tratava-se de confiar a produção francesa e alemã de carvão e de aço a uma Comunidade aberta também a outros países europeus e sob uma autoridade comum. Monnet confiou a Schuman a realização da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, convicto já da confiança que ele gozava no mundo. "Pode propor o que quiser, vão sempre acreditar em si ".
Esse mesmo dia, Adenauer, consciente da importância do acto, declara: "É o dia mais feliz da minha vida... O plano Schuman corresponde perfeitamente às minhas ideias...Não teríamos o dever de consagrar todas as nossas forças espirituais, morais e económicas à criação de uma Europa que pudesse converter-se em elemento de paz?"
De Gasperi, à cabeça do Governo italiano, adere ao plano no dia seguinte.
O plano Schuman é o ponto de partida, na prática, do que se tinha concebido na mente e na vida dos três pais da Europa.
Estender a mão
Já desde o fim da Primeira Guerra Mundial, Schuman, Adenauer e De Gasperi tinham agido e falado a favor de uma Europa unida. A Segunda Guerra Mundial e a vitória dos Aliados fizeram com que fosse Schuman o motor efectivo e primeiro, imediatamente secundado por Adenauer e De Gasperi.
Em 10 de Agosto de 1946, durante a Conferência de Paz em Paris, quando a Itália é tratada como um país vencido, De Gasperi termina o seu discurso solicitando dos vencedores uma paz que correspondia à colaboração fraterna entre os povos. Também num discurso perante a Câmara de Comércio de Nova Iorque em Janeiro de 1947, De Gasperi falará dos Estados Unidos da Europa: "As fronteiras perderam o seu significado". Palavras quase idênticas às de Schuman: "As fronteiras, em vez de serem muros de divisão, devem transformar-se em pontos de comunicação".
Em 1948, apenas passados três anos desde o final da guerra sangrenta, Adenauer tinha escrito: "Depois de tanto sangue derramado há que dar as mãos". No mesmo ano Schuman propõe "estender a mão ao inimigo de ontem, não só para se reconciliarem mas também para construirem juntos a Europa do amanhã".
Raízes cristãs
A experiência semelhante de uma vida de luta, de uma reacção de paz e a coincidência de ideias, criou entre eles uma amizade profunda.
Schuman escreve a De Gasperi em 1953: "Encontrámo-nos tarde na vida, mas a nossa amizade tem sido profunda e sem reservas. Foi sempre um mediador eficaz e desinteressado. Os dois devemos abrir caminho através de mal-entendidos e de maldades".
Maria Romana De Gasperi escreveu sobre a amizade entre o seu pai e Robert Schuman: "Entenderam-se bem de imediato. Uma mesma profundidade espiritual, um mesmo idealismo transparece sempre nas suas intervenções sobre o tema da Europa. Continuam a parecer jovens, graças ao entusiasmo e ao compromisso que põem neste programa de unidade".
Unidade, fraternidade. Termos inspirados na fé e no crisol da vida dos três pais da Europa.
Schuman declara repetidas vezes que a razão de levar a cabo o plano que tem o seu nome é a sua crença nos fundamentos cristãos da Europa. Em 1959, dirigindo-se ao Parlamento Europeu, declara: "A democracia nasceu e desenvolveu-se com o cristianismo, nasceu quando o homem, fiel aos valores cristãos, foi chamado a valorizar a dignidade da pessoa, a liberdade individual, o respeito dos direitos dos outros e o amor ao próximo. Antes da era cristã estes princípios nunca tinham sido enunciados; o cristianismo foi o primeiro a valorizar a igualdade entre todos os homens, sem diferenças de classe nem de raça".
Por seu turno, De Gasperi escreve: "A origem desta civilização é o cristianismo. Com isto não pretendo introduzir um critério confessional exclusivo nem uma avaliação da nossa história, mas o de uma herança europeia comum, de uma ética compartilhada por todos que exalta a ideia da responsabilidade da pessoa humana, com o seu fermento de fraternidade evangélica, com o seu sentido do direito herdado da antiguidade, com o seu culto da beleza refinado desde há séculos, com a preocupação da verdade e da justiça fundados numa experiência milenar".
Ana Gonzalo Castellanos, Chefe de Unidade no Gabinete de Cooperação da Comissão Europeia.
* As referências literais reportam-se à obra de Audisio Giuseppe e Chiara Alberto, Fondateurs de l`Europe unie selon le projet Jean Monnet, Ed. Salvator, Paris (2004).



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