Em Londres, a Associação Humanista Britânica fez um apelo para angariar fundos destinados a uma campanha publicitária nos autocarros urbanos. A ideia é passar esta mensagem: "Provavelmente Deus não existe. Então, deixa de te preocupar e goza a vida". Talvez não seja uma mensagem muito estimulante para o investidor da City que tem visto cair o valor das suas acções, nem para o paciente a quem acabam de diagnosticar um cancro. Mas os ateus estão de acordo em que as pessoas só são religiosas por medo ou debilidade. Não pensam que alguém possa gozar muito mais a vida se pensar que Deus é seu Pai e que, depois desta vida limitada, pode chegar a gozar da casa paterna, sem hipotecas.
Os ateus têm mais dificuldades nos Estados Unidos onde, segundo as estatísticas, 71 % das pessoas afirmam acreditar firmemente em Deus e 17 % estão quase seguras. Mas isso não afasta os missionários do ateísmo que, segundo informa The Wall Street Journal (18-11-2008), estão a recorrer à publicidade exterior para lançar as suas mensagens. Entre outras iniciativas, a Free Thought Action e os seus filiados locais puseram "out-doors" com a mensagem: "Não acreditas em Deus? Não estás sozinho". Pois um dos objectivos da campanha é fazer ver que os ateus não são bichos raros isolados, mas sim parte integrante de cada comunidade. Num país onde a imensa maioria faz parte de alguma igreja, também os ateus devem sentir o calor e o apoio dos que estão unidos pela descrença. O seu objectivo, disse o WSJ, é "que o público se sinta mais confortável com o conceito de ateísmo e dar aos não crentes um sentido de comunidade".
Não deixa de ser paradoxal que quem nos avisa continuamente que devemos desconfiar de qualquer religião institucional, queira agora unir os seus esforços num ateísmo organizado. Mas provavelmente não será fácil conseguir um mínimo de coesão, pois também entre os ateus há muitas "capelinhas". Aquele que é ateu porque só acredita no poder do dinheiro não se entenderá facilmente com aquele que recusa Deus pelo seu marxismo revolucionário, nem quem considera incompatível a fé e a ciência poderá estar de acordo com o ateu que não crê em Deus mas sim nos extra-terrestres.
Pensamento único
Desde logo, algumas das mensagens acabam por ser bastante antiquadas. Por exemplo, num dos anúncios radiofónicos encomendado pelos ateus à Air América, Ron Reagan, filho do ex-presidente, apresenta-se assim: "Ron Reagan, ateu desde sempre. Sem medo de se queimar no inferno". É claro que Reagan Jr. tem ido pouco à igreja. Se fosse, daria conta que o inferno ocupa um espaço mínimo - quando ocupa - no share da pregação actual. Hoje em dia são os pregadores das alterações climáticas os que nos ameaçam dia-a-dia desde os púlpitos jornalísticos com o inferno do aquecimento global que nos espera, se não mudarmos de vida. Um inferno em que pagarão tanto justos como pecadores. Uma condenação perante a qual não se pode dizer "por quanto tempo ainda vivo de crédito", pois está ao virar da esquina com as suas destruições massivas. E se alguém se atreve a exprimir o seu cepticismo, pôr-se-lhe-á a etiqueta de "negacionista" e será entregue à inquisição mediática.
Ainda que os ateus não se cansem de denunciar os riscos do fundamentalismo religioso, não parecem vacinados contra o fanatismo. O próprio Richard Dawkins, que contribuiu para a campanha publicitária nos autocarros de Londres, disse que "esta campanha fará as pessoas pensar, e pensar é anátema para a religião". É preciso muito optimismo para acreditar que basta um slogan para fazer pensar o transeunte. Mas também é preciso muito fanatismo para acreditar que pensar que Deus existe, é sinal de que não se pensou nem se foi autorizado a pensar.
É uma modalidade de "pensamento único" que deixa de fora da vida intelectual a imensa maioria da humanidade e erige o ateu em profeta iluminado. Mas a experiência histórica faz-nos desconfiar de todos os iluminados que acabam por querer impor as suas convicções, para bem da humanidade.
De toda a maneira, após os ateísmos totalitários que fizeram milhões de vítimas pela perseguição anti-religiosa no século XX, é um bom sinal que os ateus de hoje se lancem a propor em vez de impor. Numa sociedade aberta, é saudável que cada um defenda o que crê e dialogue com os demais para tentar fazê-los participar nas suas convicções, incluindo sobre Deus. Pois seria estranho que a livre expressão do pensamento não fosse unida ao desejo de convencer o destinatário. A liberdade de persuadir é válida para todos, crentes e não crentes.
Ignacio Aréchaga



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